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O Despertar de Haroldo Blomfeld (continuação)

III




– Tá atrasado, Haroldo!

Berrou Cláudia...

Despenteada...

Cheia de remela e mau hálito...

Horrível voz a me sacudir numa manhã fria e nublada.

Fui direto para o chuveiro...

Mas a água quente não esquentava...

Puta que o pariu!

Berrei...

Às seis e meia da manhã...

Fria, nublada, degradante manhã...

– Cala a boca, Haroldo!

Fui advertido veementemente por Cláudia, mais descabelada do que nunca, mau humorada, berrou ela também:

– Allanzinho não quer ir pr’escola...

E acrescentou:

– Você quer acordar toda a vizinhança?

Talvez quisesse...

Mas não no sentido que ela dissera.

Minhas leituras, inumeráveis, nas horas de folga, uma vez qu’eu pudesse, me encaminhavam a um beco sem saída...

Quer dizer, não era eu quem estava numa cilada, e sim esta civilização global...

Sem saída é o que parecíamos.

Escutei, então, uma voz muito fininha, desafinada, porém melodiosa, cantando uma cantiga infantil moderna...

A Xata da Chuxa!

Mas quem cantava era minha linda Taís.

Allanzinho não queria acordar...

A água não queria esquentar...

Eu já estava pelado, a espera da água quente que se recusava a sair pelo chuveiro...

E o tempo ia passando...

E minha Taís cismava com aquela musiquinha xata!...

E Cláudia pra lá e pra cá tentando acordar Allanzinho que não queria ir pr’escola...

Saí do chuveiro, enrolei-me num roupão de Cláudia, não o meu, aquele azul do hotel, por isso parecia meio ridículo, quando cruzei no corredor com Taís...

Esqueci-me que estava inteiramente nu, roupão aberto...

Não pude abraçá-la e beijá-la, conforme me ordenara uma imperiosa vontade vital, simplesmente porque ela começou a rir das minhas... coisas murchas...

Ela também descabelada, remelenta e de mau hálito, uma cópia fiel da genitora, porém linda!...

Sentei na copa, abri o jornal, enchi uma tigela com leite e derramei meu cereal matinal de todos os dias aflitos...

Pus-me a comer, tenso...

As notícias do jornal me deixavam sempre de cabelo em pé...

Mortes, assassinatos, falcatruas, esportes inúteis, artes ruins, classificados desqualificados, tudo a mesma merda de sempre, e o Xavier querendo me fritar...

Cláudia passou por mim da mesma maneira que acordou, e nem se importou com isso, nem olhou pra mim, mas sapecou:

– Você leu a notificação da escola das crianças?

Não, não tinha nem visto o tal documento na noite de ontem...

Tudo parecia quase perfeito...

Cheguei quase às dez!

– A escola não acusou o pagamento do último mês...

Continuou Cláudia.

– Liguei pra lá ontem à tarde...

Ela falava enquanto passava de um lado pro outro...

Allanzinho tinha acordado aos sopapos, e chorava na cama, mas ainda sem se arrumar...

Não sei porque, mas Cláudia parecia sem paciência naquela manhã cinzenta.

– Não adianta – continuou Cláudia, pra lá e pra cá, Taísinha cantando aquela canção, e Allanzinho chorando, aporrinhando. – Eles não acharam a porra do documento... Nós vamos ter que pagar de novo...

Cuspi leite e cereal na cabeça de Miou, a nossa gatinha malhada de preto e branco, embora eu fosse flamenguista, que saiu correndo desesperada.

– Até eles normalizarem tudo...

A partir dali eu não prestava atenção a mais nada...

Um ser estranho numa terra escrota...

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