VII
Mais um dia se passou...
Um domingo, se não me engano, não sei se ensolarado ou nublado, apesar de que da janela da saleta onde eu tentava dormir, enganar o estômago, pudesse vislumbrar algo como um panorama não muito enevoado, ainda que a claridade-sombra se alterasse de tempos em tempos, talvez, um suposto brilho tivesse me ofuscado pela manhã, quando o sol refletira-se nas esquadrias de alumínio da sala defronte, separada apenas por um fosso inútil, cheio de restos de comida petrificados e palitos de fósforos usados, mas eu não tinha certeza porque estava meio desnorteado com a noite mal dormida, o torcicolo atroz, a barba crescida espetando o rosto, e a barriga vazia roncando, desesperada pela falta de um alimento para esta alma penada e fosca. Talvez estivesse sol lá fora sim, porém o pior de tudo era esta incerteza...
Havia alguns séculos ela convivia conosco.
Eu não podia sair dali...
Encarcerado como um prisioneiro, mas ainda assim eu achava que o mundo exterior podia ser bem pior.
Não houve visitas naquele domingo insosso...
Não sei... Por um momento parecia que todos aqueles que me amavam, e não eram muitos, simplesmente me amaram...
Pra nunca mais...
Como vou explicar esta sensação?...
Durante a noite passada eu assistira a um bando de criminosos darem entrada naquela delegacia...
Um deles fora baleado na cabeça. Mas o agente de plantão tomou o seu depoimento assim mesmo:
O AGENTE: Você é cúmplice nesta ação criminosa?
O BANDIDO:... Quase em coma.
O AGENTE: Qual era sua função no assalto?... Você confirma então sua participação?... Serei obrigado a registrá-lo no B.O. como cúmplice de latrocínio... Você tem família?... O criminoso não se dispõe a colaborar... Encarcerem este homem!
Todos os outros criminosos passaram pelo B.O. Todos moradores de uma favela. Nascidos e criados num quadro de ausência total de políticas nacionais de inclusão social, sem-vergonhice deslavada de elites espúrias e passividade total de uma classe-média com mente lavada, voltada única e exclusivamente para um consumo irracional...
Lá pelas tantas entrou um homem na delegacia...
Muito bem vestido, bem nascido, logo se via, e estava embriagado...
Completamente.
Matara outro homem com um tiro no coração, à queima-roupa, por causa de uma briga no trânsito...
Foi devidamente fichado. Mais nada. Disseram que iria responder o processo em liberdade, pois pagara fiança. Não sei se isso vai trazer algum conforto para a família do falecido, do assassinado. Esta parte eu não ouvi; me contaram. Um dos agentes de plantão me tratava muito bem; quase como um irmão; pena que foi embora pela manhã.
São tantos os descasos da vida que passam em desfile pelo carnaval eterno desta folia chamada Brasil...
O outro foi à delegacia registrar um atropelamento...
Em seu depoimento, o acusado de atropelamento proposital pela família da vítima, disse que ele, a vítima atropelada, ignorou solenemente a pista de alta velocidade em que ele, o acusado, vinha...
Pista mal sinalizada, mal iluminada...
Pronto.
A vítima fora levada a um hospital pelo próprio acusado. Os médicos, revistando nas coisas da vítima, avisaram à família. Agora, a vítima estava entre a vida e a morte, e sua família querendo processar o motorista por homicídio culposo. A vida deste homem, o motorista bêbedo, estaria complicada se a vítima viesse a falecer, porque, àquela hora da madrugada não havia testemunhas favoráveis ao acusado.
Alguma coisa dentro de mim me dizia que as pessoas se tornaram suicidas inconscientes...
Inconsequentes...
Basta você andar pelas ruas...
Ou dirigir um automóvel.
São tantas as coisas qu’eu vi...
Para chegar a um diagnóstico irrefutável...
Não há esperança para esta civilização enlouquecida.
Mas ainda não é o ponto final...
Atentem bem para este detalhe!...
O ponto ômega da Bíblia.
Mais um dia se passou...
Um domingo, se não me engano, não sei se ensolarado ou nublado, apesar de que da janela da saleta onde eu tentava dormir, enganar o estômago, pudesse vislumbrar algo como um panorama não muito enevoado, ainda que a claridade-sombra se alterasse de tempos em tempos, talvez, um suposto brilho tivesse me ofuscado pela manhã, quando o sol refletira-se nas esquadrias de alumínio da sala defronte, separada apenas por um fosso inútil, cheio de restos de comida petrificados e palitos de fósforos usados, mas eu não tinha certeza porque estava meio desnorteado com a noite mal dormida, o torcicolo atroz, a barba crescida espetando o rosto, e a barriga vazia roncando, desesperada pela falta de um alimento para esta alma penada e fosca. Talvez estivesse sol lá fora sim, porém o pior de tudo era esta incerteza...
Havia alguns séculos ela convivia conosco.
Eu não podia sair dali...
Encarcerado como um prisioneiro, mas ainda assim eu achava que o mundo exterior podia ser bem pior.
Não houve visitas naquele domingo insosso...
Não sei... Por um momento parecia que todos aqueles que me amavam, e não eram muitos, simplesmente me amaram...
Pra nunca mais...
Como vou explicar esta sensação?...
Durante a noite passada eu assistira a um bando de criminosos darem entrada naquela delegacia...
Um deles fora baleado na cabeça. Mas o agente de plantão tomou o seu depoimento assim mesmo:
O AGENTE: Você é cúmplice nesta ação criminosa?
O BANDIDO:... Quase em coma.
O AGENTE: Qual era sua função no assalto?... Você confirma então sua participação?... Serei obrigado a registrá-lo no B.O. como cúmplice de latrocínio... Você tem família?... O criminoso não se dispõe a colaborar... Encarcerem este homem!
Todos os outros criminosos passaram pelo B.O. Todos moradores de uma favela. Nascidos e criados num quadro de ausência total de políticas nacionais de inclusão social, sem-vergonhice deslavada de elites espúrias e passividade total de uma classe-média com mente lavada, voltada única e exclusivamente para um consumo irracional...
Lá pelas tantas entrou um homem na delegacia...
Muito bem vestido, bem nascido, logo se via, e estava embriagado...
Completamente.
Matara outro homem com um tiro no coração, à queima-roupa, por causa de uma briga no trânsito...
Foi devidamente fichado. Mais nada. Disseram que iria responder o processo em liberdade, pois pagara fiança. Não sei se isso vai trazer algum conforto para a família do falecido, do assassinado. Esta parte eu não ouvi; me contaram. Um dos agentes de plantão me tratava muito bem; quase como um irmão; pena que foi embora pela manhã.
São tantos os descasos da vida que passam em desfile pelo carnaval eterno desta folia chamada Brasil...
O outro foi à delegacia registrar um atropelamento...
Em seu depoimento, o acusado de atropelamento proposital pela família da vítima, disse que ele, a vítima atropelada, ignorou solenemente a pista de alta velocidade em que ele, o acusado, vinha...
Pista mal sinalizada, mal iluminada...
Pronto.
A vítima fora levada a um hospital pelo próprio acusado. Os médicos, revistando nas coisas da vítima, avisaram à família. Agora, a vítima estava entre a vida e a morte, e sua família querendo processar o motorista por homicídio culposo. A vida deste homem, o motorista bêbedo, estaria complicada se a vítima viesse a falecer, porque, àquela hora da madrugada não havia testemunhas favoráveis ao acusado.
Alguma coisa dentro de mim me dizia que as pessoas se tornaram suicidas inconscientes...
Inconsequentes...
Basta você andar pelas ruas...
Ou dirigir um automóvel.
São tantas as coisas qu’eu vi...
Para chegar a um diagnóstico irrefutável...
Não há esperança para esta civilização enlouquecida.
Mas ainda não é o ponto final...
Atentem bem para este detalhe!...
O ponto ômega da Bíblia.
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