Um dia quente pra burro! Dia de fila na lotérica porque a Megasena acumulara de novo e pagaria mais
de vinte milhões de reais ao sortudo - ou sortudos - que acertessem as seis
maravilhosas dezenas quiméricas...
E a fila na
lotérica quase dava a volta ao quarteirão, e um sol de mais de quarenta graus à
sombra fritava os cérebros na calçada...
E a fila quase não
andava!...
Em dado momento, lá
no meio da multidão dos aficionados, um senhor de certa idade, cujo peso da
experiência já impunha certa curvatura aos ombros alquebrados, cabelos
totalmente grisalhos e raros, mas olhos ávidos diante da ilusão da fortuna
fácil, e de outros atrativos também, atirou na direção de uma moça muito bonita
que estava a sua fente na fila:
- Ouvi falar que
esse negócio de loteria é uma tremenda furada...
A moça, que devia
ter por volta de vinte anos, morena, de pele e corpo escultural, daquele tipo
de passista que desfila seminua na Marques de Sapucaí, com olhar de desconfiada
e cara de poucos amigos, olhou o velhinho de cima a baixo, mas não deixou-o sem
uma resposta, embora lacônica:
- É o que dizem...
- Você acredita
mesmo que se ganhasse essa fortuna sozinha, o governo ia pagar...?
- Meu senhor... -
retrucou a jovem com alguma irritação - O senhor acha que se eu não acreditasse
ia enfrentar essa fila quilométrica, um calor desgraçado, a troco de quê...?!
- É... Faz sentido
- replicou o velhinho mal convencido, e sem deixar de apreciar as belas curvas
da garota...
No entanto, como o
assunto morresse ali e o calor aumentasse não satisfeito com o silêncio imposto
pela dama, ele atacou de novo...
- Se eu ganhasse
essa grana toda, talvez nem tivesse tempo de gastar...
E, de repente,
compadecida, talvez arrependida, a linda jovem comoveu-se com o drama
corriqueiro daquele pobre brasileiro:
- O senhor está
doente?
- Mais ou menos...
- tergiversou, malandro. - Não dá pra notar, mas eu sofro de uma doença
incurável...
E ela, que agora
via o velho com um pouco mais de compaixão, virou-se para ele cheia de humor e
disse:
- Não se preocupe,
vovô... - disse ela sorridente. - Se o senhor ganhar e não puder retirar o
dinheiro eu cuido dele pro senhor...
E ele, cheio de
moral, respeitosamente, mas com olhar lascivo:
- Pode deixar minha
filha! Com toda essa grana eu posso comprar muito mais que a sua
generosidade...
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