I
A civilização humana atingiu os píncaros do conhecimento, da filosofia e da tecnologia, decifrando muitos dos segredos recônditos no tecido do universo...
Espaçonaves mais velozes que a velocidade da luz atravessam o espaço sideral colonizando planetas antes virgens...
Porém, esta civilização, que cresceu muito em técnica, também decifrou os segredos da viagem no tempo...
Passaram-se muitos anos de discussão científica. Até que ponto seria ético seres humanos viajarem no tempo, e imaginou-se coisas sinistras, como, por exemplo, será que o ser humano poderia destruir a própria civilização...?
Muitos anos mais se passariam até que os doutos resolvessem se aventurar nas viagens no tempo. Em meio a tantas discussões acaloradas interdisciplinares, os cientistas decidiram que sua primeira viagem no tempo seria no alvorecer da humanidade, quando os primeiros homens e mulheres viviam em cavernas, caçando animais selvagens, cobrindo-se com as peles deles, e fugindo das feras esfaimadas que os caçavam também...
Os cientistas daquela civilização chegaram à conclusão que o cérebro do homem era o mesmo; tanto para aquele que mal tinha descoberto o fogo, quanto para o atual, que viajava pelo tempo...
E para provar esta teoria um cientista teve uma ideia brilhante: voltaria ao tempo dos homens das cavernas com uma bomba atômica com o poder de destruir toda a vida planetária. Eles pretendiam provar que o troglodita possuía a capacidade para manusear a bomba atômica, mas este seria apenas um teste antropológico., sociológico, ou tivesse a lógica que tivesse. Ninguém deixaria que o troglodita incivilizado disparasse o mecanismo da bomba, que, segundo a inteligência militar da época, seria o óbvio para este selvagem das cavernas fazer, ele que mal articulara a linguagem falada...
Ah! E por falar em linguagem falada, todos os filólogos especializados em idiomas mortos trataram de treinar o cientista para que ele pudesse falar o idioma plausível dos primeiros homínidas daquela civilização...
O próximo passo seria a viagem no tempo em si...
II
Como era de se esperar, todas as simulações em computadores quânticos, e depois as próprias experiências com cobaias foram um sucesso! Tudo indicava que a primeira viagem no tempo tripulada seria sem incidentes imprevistos...
O cientista escolhido para a tarefa, um voluntário, claro, munido de sua bombinha, que não pesava mais do que dez quilos, transportou-se para a idade das cavernas...
Foi uma tremenda dificuldade selecionar uma determinada tribo-alvo, fugir dos animais selvagens que desejavam aquele ser estranho para sua dieta, e a própria aproximação da tribo enfim escolhida...
Isso durou cerca de dez dias!
Para aqueles selvagens, desconfiados por natureza num mundo hostil, aquela criatura que possuía alguma semelhança com eles, tinha um quê de perigo iminente, além do que fedia muito na concepção daqueles bárbaros caçadores e coletores...
Mas ele conseguiu, haja vista que a curiosidade humana era um dos fatores que os aproximava. O líder da tribo-alvo foi o primeiro a aproximar-se do viajante do tempo, o que para a experiência a ser realizada significava um bom passo...
Como o viajante do tempo havia aprendido inúmeros idiomas primitivos, um deles serviu-lhe para comunicar-se no início. Depois, com a confiança conquistada in loco, o cientista pôde apreender a verdadeira linguagem dos homens primitivos...
E começou a doutrinação...
O cientista do futuro passou a ensinar a razão daquele objeto ao troglodita, quer dizer, iludindo-o logo de cara sobre a verdadeira função daquela coisa incompreensível para o homem primitivo...
O troglodita não conseguia entender a razão daquele objeto, por mais que o cientista do futuro tentasse ludibriá-lo, dizendo que aquilo era um aparelho que iria trazer facilidades a toda a sua tribo, que graças àquele artefato ele poderia livrar-se de todas as tribos que competiam com a sua pela comida, mulheres, abrigo e todo o resto...
Mas aqueles cientistas do futuro que especulavam que os cérebros separados pela história eram iguais em potencialidades, estavam absolutamente certos!
O troglodita intuía que aquela bomba atômica - que ele não sabia exatamente para o que servia - não era uma coisa que iria beneficiar a sua tribo apenas, e inquiriu o viajante do tempo de todas as maneiras...
Nem é preciso dizer que aquele cientista já estava íntimo de todos os membros da tribo, apesar de continuar a cheirar mal na concepção dos selvagens. Brincava com as crianças, conversava com os mais idosos, e ainda dava umas voltinhas com uma rapariga ou outra sem marido, para apreciar a belíssima paisagem primitiva...
Entretanto, as dúvidas continuavam na cabeça do chefe da tribo. Ele não queria aceitar aquele presente do viajante do tempo, nem por toda a caça da época! Ele desconfiava de algo ruim, ameaçador. Os povos primitivos já possuíam uma alta dose de intuição, principalmente em relação ao perigo...
De tanto ser sabatinado pelo chefe da tribo, o viajante do tempo teve de explicar ao seu anfitrião que o uso daquele instrumento, de fato, iria eliminar todas as tribos inimigas, mas as consequências seriam catastróficas inclusive para a sua tribo...
A caça poderia desaparecer, assim também como os vegetais que serviam para completar a sua alimentação. A água também não poderia ser consumida por longas temporadas, o que levaria toda a vida no planeta à extinção...
O chefe da tribo não hesitou um minuto sequer depois desta explicação: esqueceu aquele assunto que lhe parecia desagradável e sem sentido, e chamou o viajante do tempo para uma caçada somente os dois. O cientista achou aquilo muito esquisito, afinal ele também tinha um sentido apurado para o perigo, mas acabou topando em sinal da amizade entre eles...
Andaram centenas e vintenas de quilômetros. Quando o cientista viajante do tempo não aguentava mais dar um passo, o troglodita, absolutamente inteiro, concordou em fazer uma pausa para descansar...
Enquanto o cientista bebia a sua água tranquilamente para se recuperar da longa caminhada, levou uma porretada na cabeça e desencarnou na hora!
Como eles estavam muito distantes da caverna que servia de abrigo àquela tribo primitiva, um local que apenas o chefe conhecia, ele resolveu enterrar a bomba atômica por ali mesmo, onde ela jamais seria encontrada por outro ser humano, e aproveitou também para enterrar o cientista com todos os rituais religiosos praticados por sua tribo...
Vocês acham que esta história acaba aqui...?
III
Pois bem, esta civilização de homens e mulheres das cavernas evoluiu para uma civilização mais organizada...
Muitos milênios se passaram...
Eles ainda não haviam conquistado muito conhecimento como no início da nossa história, na verdade encontravam-se numa era pré-industrial, mas eram muito inteligentes, curiosos e cheios de vontade de aprender sobre o seu passado misterioso...
Muitos historiadores diziam que o motivo porque eles viviam em tamanha ignorância em relação ao seu passado, é porque muitos fanáticos religiosos haviam queimado um sem número de bibliotecas ao longo da sua história...
Ainda havia os arqueólogos, sempre buscando compreender também o passado com algumas pedrinhas e pedaços de artefatos antigos, que inventavam grandes coisas! E foi numa dessas escavações circunstanciais que eles a descobriram...
Enterrada debaixo de centenas de escombros...
Mas intacta!
Obviamente os pesquisadores não sabiam qual o objetivo daquele artefato histórico, somente que era muito antigo, a julgar pela idade das rochas e sedimentos que o soterraram durante milênios...
Mas, afinal, para que servia aquele objeto...?
Alguns especularam que os povos primitivos não o poderiam ter construído, e outras vozes mais fantasiosas alegavam que aquilo poderia ter vindo de fora do planeta, mas estes foram taxados de loucos e esquecidos...
Houve um cientista, igualmente de mente privilegiada, que deduziu que aquela geringonça indescritível - possivelmente! - teria vindo do futuro. Nem é preciso mencionar que o doido varrido foi completamente desprezado pelos seus pares, e proibido terminantemente de divulgar tais teorias!
A verdade é que ninguém, naquela idade média daquele planeta, conseguiu descobrir a função daquele aparelho estranho, e continuaram tentando, por tentativa e erro...
Foi a sua tragédia!...
De tanto que reviraram e mexeram na bomba atômica, ela acabou por ativar-se. Alguém, sem o querer, claro, foi capaz de acionar o mecanismo de ignição, e como ela estivesse intacta, aquela civilização, tão alvissareira e capaz, deixou de existir da noite para o dia...
Alguém ainda tem dúvida sobre a moral desta história...?
Alguns leitores mais atentos poderiam perguntar como esta civilização foi tão longe em termos tecnológicos se houve o tal paradoxo do tempo, mas a estes eu respondo que a mecânica quântica supõe inúmeras possibilidades...
Alguém, talvez, no futuro, descobrindo que sua experiência de viagem no tempo desencadeou esta tragédia que foge à lógica do raciocínio, voltando à época em que o primeiro viajante do tempo se preparava para transpor os limites do passado, impediu que a experiência se realizasse...
Mas eu prefiro deixar para os leitores as demais conclusões...
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