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O Despertar deHaroldo Blomfeld (continuação)

II




Levantei-me agonizante, tropeçando nos meus próprios passos enfarados, quase mal-humorados, seguindo direto para o cafezinho da dona Matilde...

Dona Matilde, murmurei libidinosamente, para que ela não ouvisse, claro. “Que seios deliciosos, Dona Matilde... Em forma de pêra d’água”. A maravilhosa dona Matilde!...

Maldito Pessanha que teve o privilégio de tocá-los ao vivo!...

Aquele cafezinho quentinho, cheiroso, da deliciosa dona Matilde...

Mas uma bufada pigarrenta do meu chefe disse-me da inconveniência daquela interrupção, embora o meu gesto tenha detonado uma fuga em massa para o delicioso cafezinho da saborosa Matilde...

Ai meu Deus, gostosa, ainda te pego um dia!...

“Mas o Bloomfeld é um alucinado pelas justificativas tecnicistas!”

Este foi o Xavier, aquele bajulador lambedor de solas de sapatos, filho da puta, falando de mim, o sacripanta!

Aqui na empresa todo mundo se adorava...

Como Flamengo e Vasco, Corinthians e Palmeiras, Internacional e Grêmio, etc e tal...

Mas ninguém tinha a coragem de assumir...

Mundo perverso filho de uma cadela sem dono!

“Eu acredito que o seu ponto de vista, Bloomfeld, eivado de uma tendência sócio-econômica bizarra, afeta a parte final do projeto nacional de desenvolvimento”...

Este o meu chefe, aquele grandessíssimo filho...

Quando a reunião foi retomada, eu, Pessanha, dona Matilde, que infelizmente tinha saído, o meu chefe, carrancudo, e mais uma cambada de babadores de ovo, continuamos a reunião...

Mas ela jamais seria a mesma...

“Você, Bloomfeld, tem fama de ser o senhor certinho, mas também tem um pinico fora do lugar”...

“Xavier, Joaquim José”...

“Isto não é a Inconfidência Mineira, Bloomfeld!”

Disse Matilde, nua, derramando café fervendo sobre meu corpo sedento de amor, igualmente nu, amarrado à cama do meu chefe...

“Morte aos senhores certinhos deste país surreal!”

Proclamaram em uníssono todos os presentes àquela reunião...

Estavam todos vestidos de diabinhos da idade média...

E uma série de párocos cujas batinas só tinham a parte da frente, revelando carnes brancas pecadoras por trás, abriam seus traseiros, soltando puns fenomenais e adorando 12 bafomés em forma de mulher...

Preso a uma guilhotina enferrujada, eu assistia a tudo sem poder me mover, até que Cláudia, segurando pela mão direita Taís, e pela mão esquerda Allan, entrou no patíbulo vestindo negro todos os três...

Cláudia soltou as crianças e elas correram em minha direção, berrando, em prantos, agarrando-me...

Mas Cláudia, insensível, soltou a corda que prendia a guilhotina no alto do patíbulo, e o som de uma lâmina mortal a caminho de um pescoço inocente, abriu meus olhos...

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