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O DESPERTAR DE HAROLDO BLOOMFELD - CONTINUAÇÃO

XII

Enfim...
Um dia eu topei com o Juiz de Direito mais uma vez...
Talvez no dia do julgamento talvez...
Eu já sabia que nada seria como antes neste mundo de Abrantes.
Depois de reler Joyce pela quarta vez, amadurecido enfim...
Eu comecei entender que as palavras estão na verdade soltas no ar...
Na mente...
E portanto no espaço sideral...
Sem amarras...
E como irei descrever este final apocalíptico?
É muito simples...
Eu havia perdido até a fome, uma coisa que não sói acontecer com muita freqüência...
Nem mesmo encerrado naquela saleta desgraçadamente.
Aliás eu já havia saído daquele ambiente de purgatório maldito; só mesmo na mente de alguns estúpidos sacerdotes católicos inventar tal parada!
Defrontei-me finalmente com o Juiz de Direito...
O embate final antes do Juízo...
Ele virou-se para mim, a cara mais lavada do mundo e me disse:
– Quem você pensa que é afinal, Bloomfeld?
Isso eu me lembro bem.
– Eu? – volvi, surpreso como responder. – Eu não sou nada, não sou ninguém, seu Juiz, mas um reflexo de tudo que há, que houve. Eu sou você, delegado, sua mãe, seu pai, seu irmão, seu cão de estimação. Sou a mosca que sobrevoa sua sopa, a brisa que embaraça seus cabelos, a poeira que o faz espirrar; o tigre que espreita sua presa, a formiga que segue religiosamente a programação genética do formigueiro; a mesma substância misturada em proporções desiguais, que cria vermes e anjos, extensiva a todos os universos. Eu sou Deus... E você também, Senhor Juiz. A barata e o bandido, o santo e a prostituta, a merda e as flores, as montanhas e o câncer; em tudo isso nenhuma diferença essencial, mas sim no reflexo, na quadratura do círculo, e, além do número atômico, a flutuação quântica que nos engana, pois hoje você se julga homem, amanhã não mais que uma névoa, a percorrer este imenso Multiverso que cabe na palma de sua mão...
– Você se julga uma espécie de profeta, Bloomfeld?
– Nem mais uma vírgula do que o Senhor.
– Eu não quero porra nenhuma, Bloomfeld! Estou aqui para cumprir a lei...
– Tal como eu...
– Há alguns séculos você seria queimado numa fogueira...
– Quem sabe não fui?
– Você é muito esperto, mas hoje nós temos meios mais sutis de calar a sua boca...
– Eu sei disso! A mídia!
– Você está se tornando redundante, Bloomfeld.
– Não é assim que a mensagem subliminar age nos cérebros? De tanto insistir naquilo a informação acaba sendo incorporada como coisa pessoal, sem que o destinatário se dê conta disso...
– Pegue suas coisas, Bloomfeld. Você vai pregar num deserto virtual...
– Bem, então eu tenho ainda alguma chance...
– Você não poderá atingir ninguém...
– Não trouxe nada comigo, embora vocês tenham tentado reduzir a minha dignidade a zero...
– O silêncio descerá sobre você... Nem mesmo sua família, seus ancestrais, saberão quem foi Haroldo Bloomfeld...
– Você está virtualmente enganado, Juiz. Assim como vocês são legião, eu também. Este universo desaparecerá um dia, sem dúvida; mas esta experiência, a minha, muitas outras, ficarão registradas nos arquivos secretos do tempo imperecível de todas as humanidades. Estes erros não mais serão cometidos de novo...
– Vamos, seu profeta de meia dúzia de galinhas e sandálias velhas, o seu tempo acabou antes de ter começado...
E, assim, a voz da atmosfera, em luto cerrado, permitiu que as partículas de luz integral, apropinquando-se, chegassem a este mundo envolto em trevas...

PS: Aqui jaz a literatura atual.

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