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O DESPERTAR DE HAROLDO BLOOMFELD

Quando eu penso naquilo tudo pelo qu’eu passei, tudo que amealhei nesta vida bandida, a que as pessoas se prendem com unhas e dentes, tudo aquilo que elas julgam de bom tom, bens que fazem com que as pessoas revirem as cabeças de felicidade, percam o sono com o dia seguinte, sonhando quando estiverem na loja pela manhã, e o pequeno Allan chegou mesmo a perder a cor certo dia, num natal bem bonito, recordo-me bem, quando eu lhe trouxe aquele ferrorama completo, com todos os ingredientes que um garoto sonha, e, mesmo que não sonhasse perdidamente, talvez a coisa nem tivesse passado pela sua cabeça pequenina, mas quando ele viu o trenzinho ali, ao vivo, percorrendo seu eterno caminho rumo sempre ao mesmo ponto, como a serpente que mordesse a própria cauda...


Nossa Senhora! Ele era bem pequeno o moleque...

Eu me lembro da carinha dele de alegria, a surpresa, seguida do largo sorriso, o deslumbramento quando aquele pequeno universo iniciou sua vida, mesmo que ele não soubesse o que representava, tudo era divertimento...

Aquele foi mesmo um belo natal, embora eu tivesse brigado feio com Cláudia por causa da má educação da mãe dela...

Coitada!...

Não era culpa dela...

A velha tinha mesmo um gênio do cão, tinha sim, e como tinha, mas o “Cossaco” do meu sogro... Ah! Aquele eu gostava muito...

Cossaco... Eu botei este apelido nele porque ele era filho de russos... Dizia ele que lá das estepes geladas da Sibéria, o Atílio Bivov...

Pra que, Meu Deus?...

Pra que tudo isso?...

Juntar as porcas soltas numa re-construção verdadeiramente desmiolada, cuja cada célula social, animal, humana, possa reconhecer o seu vizinho, pedacinho por pedacinho, à sua direita e à sua esquerda, num encadeamento harmônico, endiabrado, possuído da mais sublime atitude para com o outro, irrespondivelmente. Eis aí uma devota mulher desnuda, sendo que o véu que a cobria, fino véu de cambraia quase desmanchando, está desguarnecido de seus componentes básicos.

Assim a Via Láctea...

Aborrecidamente aonde nenhum homem teve a petulância de pôr os pés...

Conspurcados!...

Conspurcados pela vida caótica que lhe ronda os calcanhares que encamparam centenas e centenas de quarteirões por dezenas de milhares de acres quadrados por alqueires incontáveis de gerações perdidas por um imenso caudal atropelado por uma manada de milhafres ensandecidos agora...

Neste momento, Haroldo Bloomfeld se deu conta das besteiras que imaginava, assim, com sal, enquanto caminhava ao léu...

Sem lenço e sem documento, seguindo na mesma direção que outros homens menos ilustres como ele, pobres homens solitários, vadios, vazios, levando a vida como Deus manda...

Uma vaca entre outras tantas vacas no matadouro...

Como Deus manda?! Que espécie de heresia é esta?!

Quem sabe a vontade de Deus nesta Terra aviltada?

Aleijados, de caneca e queijo na mão; o leite fresquinho saindo da geladeira àquela hora, por onde se inicia todo o processo, o homem sentado à direita com o cetro e a coroa de feltro, mas com uma longa folha de Flandres a cobrir-lhe o seio torto, onde não habita uma alma humana at all, mas uma legião feroz...

Não sabia onde tudo isso ia dar o gajo, como não sabia também aonde ia parar. O fato é que Haroldo Bloomfeld, alojado na capota de um planador absolutamente chamuscado, almejado por miríades de partículas fotossintéticas subatômicas, sílabas tônicas, orvalhamente clamando por uma humanidade átona, que o contemplava com indiferença, ou melhor, não via nada! Tudo era perdição numa placa defronte à janela dórica da padaria ajaezada...

Todo um momento de reflexão...

Coalhado de instantes vazios...

Palavras soltas ao vento alegre, cheirando através de um bule de café com pão com manteiga com geléia real etc e tal...

Etc...

E etc...

Quantos pecadores ainda terão que pagar nesta Terra de Deus Nosso Senhor para que todomundo possa entender o significado da palavra?...

Padres e pastores inclusive...

O Verbo é inominável em linguagem humana, por isso estamos atolados na lama...

Mas Haroldo Bloomfeld seguia incólume...

Pela Rua da Travessa do Imperador...

Que, no entanto, poderia ser qualquer uma...

Olhando vitrines vazias, passos hesitantes, expectantes, corações ocos...

Haroldo Bloomfeld não era um boneco de porcelana chinesa, embora labutasse como um mouro português, um mortal imoral com bolso vazio, que fazia milhões de dólares para corporações sem rosto que não respondiam com palavras...

Todavia, Haroldo Bloomfeld possuía uma casa... Por incrível que pareça!... E uma família mais ou menos bem estruturada...

Quer dizer...

Às vezes pensamos que tudo corre às mil maravilhas em nossas vidas, até que um acontecimento banal nos abre os dois olhos ao mesmo tempo, antes tão sonolentos...

Haroldo Bloomfeld chegou em casa...

Dia cansativo.

Como os demais.

Ele tinha toda uma rotina préprogramada que cumpria à risca.

Chegar em casa, beijar a esposa, subir ao segundo andar e beijar as crianças, que certamente estariam brincando inocentemente, ir ao banheiro, ver se tinha alguma coisa a mais para fazer, caso contrário, abrir o chuveiro e meditar, enquanto a água, já rara na natureza, ia-lhe massageando lentamente a tez amarelenta com cara de polenta.

Oh, Céus, hediondos Céus! A água acabou?! Não é possível! Mas porque, desgraçadamente, logo hoje...

Uma falha mecânica passageira corrigida por si só a água voltou a cair...

Oh, Céus, Benditos Céus! Água Bendita!

Até que...

“Sai desse banho, Haroldo!”

Haroldo parou, atento, pois não havia compreendido a frase em minúcias. Fechou o registro do chuveiro com um requinte de crueldade...

“Eu estou com fome, querido!”

Gritou ela.

Agora sim...

– Vai comendo com as crianças, amor... (Isto não estava incluído em sua rotina diária) Eu já estou descendo...

“Allanzinho disse que só vai comer com o papai”...

– Manda ele comer agora, Cláudia!...

Logo depois desta frase, proferida assim, de maneira ríspida, Haroldo achou que tinha se exasperado à toa, mas...

“Allanzinho não vai querer, Haroldo... Você não conhece seu filho?”

Conheço, pensou Haroldo deprimido por um rápido elétron. É igualzinho ao pai.

– Mas papai quer que Allanzinho comece a comer com a mamãe...

Replicou ele brandamente.

“Só com o papai”, confirmaria Allanzinho, renitente, logo depois de consultado, ao lado de um desses bonecos de guerra articulados, sem cabeça devido ao tiroteio dos inimigos.

Haroldo desceu conforme o prometido, assim que acabou seu banho demorado, descabelado, enrolado num roupão de hotel azul...

Taisinha, sua filha, começou a rir-se de seu pai. Como conseqüência, Allan, mais novo que a irmã, começou a rir também, embora não soubesse o motivo que despertara o riso na irmã.

Até Cláudia riu-se...

– O que foi? – pergunta um espantado Haroldo.

– Seu cabelo... – retruca uma Cláudia ainda sorridente. – Está uma comédia.

Haroldo ajeita o cabelo rapidamente com mãos sôfregas, piscando para Taís, que continua a deliciar-se, rindo,...

Allan também...

Os filhos, normalmente, adoram os pais...

Mas Cláudia não... Quer dizer, também adora o marido, até os limites que este amor pode suportar...

Porém há limites na vida de um homem inimagináveis para o próprio homem...

Mas tudo está previsto...

Ou melhor, nada se pode prever com 100% de certeza...

Haroldo Bloomfeld não podia imaginar que uma vida vale tão pouco, quando os fundamentos que o prendem à realidade estão por um fio...

As coisas são assim...

Esta é que é a verdade...

O jantar seguia sem atropelos...

Como manda o figurino da família Bloomfeld...

Allanzinho, enfim, comeu com papai...

A noite poderia resumir-se nisto.

(CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA)

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