IX
Arranjei...
Naturalmente.
Ocorre que o problema não era este...
Virtualmente...
Não se pode falar de advogados...
Existe uma plêiade deles por aí...
Muito provavelmente Cláudia já havia entrado em contato com o meu...
Porém, é óbvio que o problema todo não dizia respeito a meia dúzia de advogados...
Que existisse uma grosa, admitamos...
Entretanto, potencialmente falando, filosoficamente dissertando sobre um tema que tece páginas e mais páginas a favor ou contra a instituição mais pacata que se tem notícia, não a mais desafortunada, com toda a certeza, o problema, definitivamente, não se resumia a isto...
Realmente.
Havia como que uma balbúrdia atrás de mim, vinda de fora, algum lugar; um burburinho incessante, um zunzum anárquico, com muitas vozes falando ao mesmo tempo. Vozes humanas, desordenadas...
Mas o que era isto?
Ninguém sabia.
O delegado não estava.
Quase era certo afirmar.
No entanto havia alguém...
Que conhecia o segredo de tantas vozes aflitas, tumultuosas...
O agente encarregado de minha segurança veio me comunicar...
Eu, entretanto, não esperei por suas explicações e fui logo indagando:
– O que está acontecendo aí fora?
– A imprensa sabe do seu caso... – disse ele.
– Meu caso?! – repliquei espantado.
Uma pausa um tanto longa, demasiado para o momento, inverossímil, poderia se dizer, intermediou-nos o diálogo.
– Como pode? – continuei indagando ainda admirado.
– Não sei – respondeu o agente, indiferente. Via-se que isto não despertava nenhuma emoção no seu ser...
Aparentemente.
– Não sabemos como... – continuou o agente consciente. – De repente eles começaram a chegar... Atraídos por alguma fala indeterminada, uma fonte de mel, mas que podemos presumir oriunda daqui mesmo... O fato é que todos julgam o seu caso muito peculiar... A imprensa quer respostas claras.
– A imprensa quer respostas claras?... Engraçado. Todos nós queremos.
– Eles querem entrevistar você...
– Mas porque o meu caso atraiu tanto interesse assim?
– Eu conversei com alguns deles... Por acaso... Eles acreditam que o seu caso é simbólico...
– Mas quem?!
– Não faça perguntas difíceis de responder, Bloomfeld! Acontece que este cidadão... Uma repórter, aliás, que julga o seu caso bastante emblemático, de uma sociedade que se julga em evolução e comete todo tipo de atrocidades. Exatamente como no seu caso...
– Eu não creio que a sociedade esteja cometendo uma atrocidade no meu caso em particular...
– Exatamente como ela falou.
– Mas com milhares de outros indivíduos menos favorecidos com certeza...
– Ela falou isso também...
– Menos instruídos...
– Paradoxal...
– Isso...
– Foi como ela colocou...
– Mas em relação ao quê?
– De como a sociedade se mostra esquizóide...
– Eu concordo.
– Deixando tantos loucos a solta...
– Veja você...
– Alguns deles exercendo cargos no governo...
– Me deixe falar com esses jornalistas...
– Eu não posso, Bloomfeld.
– Porquê?
– Ordens do Delegado.
– O Delegado não pode inibir a divulgação da informação...
– Não compete a mim julgar, Bloomfeld...
– Mas está na constituição!
– Você é advogado?
– Eu não preciso ser advogado para conhecer os meus direitos, ora!
– Você tem certeza, Bloomfeld?
– Claro homem! Todos os cidadãos têm o direito de opinar sobre qualquer assunto... A bronca é livre. Portanto, se os jornalistas querem divulgar a minha história deixe-os entrar...
– Você fica sendo o único responsável pela presença deles aqui, Bloomfeld...
– Deixa comigo...
O agente se retirou estranhamente amuado. Talvez ele estivesse com medo do Delegado...
É natural...
Todo mundo tem medo da polícia...
Bem...
O agente chamou a imprensa...
Eles invadiram o pequeno recinto onde eu estava detido...
Por um momento eu pensei em sair para deixá-los mais à vontade, mas isto seria uma incoerência...
As coisas se encaminhavam exatamente como estavam previstas, ou seja...
À imprensa, todas as informações disponíveis, e ao povo...
Migalhas, filigranas de conhecimento, para que ele continue povo, com direito ao eterno voto e nada mais.
Uma jovem muito bonita, porém magra demais, pele excessivamente pálida, e os cabelos vermelhos, incluindo as unhas, e uma idade que orçava lá pelos idos da década de trinta, mais velha do que Cláudia, com certeza, mas infinitamente mais sensual, sombras nos olhos, e na alma, mais obumbrosa, posto que o seu conhecimento geral não lhe permitisse ir além...
Vender notícias tolas...
Sem contribuir para a transformação de uma sociedade banal.
Os dedos seguravam com força um microfone. Nas mãos dela um objeto quase fálico, pensei...
E as unhas, vermelhas...
Quando cheguei à conclusão deste vocábulo quase inútil...
Unha...
Não era uma palavra que a literatura repetisse com freqüência...
Unha...
Francine...
Perguntei-lhe seu nome...
Ela respondeu com um sorriso encantador, convidativo, e pronunciou seu nome com um acento infantil, sempre sorrindo...
Francine Probvost.
Os nomes dessas jornalistas ultimamente tinham se tornado tão estranhos...
Uma origem que remontava às tradições renanas...
Francine fez-me a primeira pergunta...
O sujeito que a acompanhava, aliás dois, um cameraman e um caboman, quase enfiaram aquela câmera na minha cara!
– O senhor se considera vítima de uma sociedade anacrônica?
Sinceramente...
Não esperava uma pergunta assim.
– Totalmente – respondi.
– Esta sociedade onde todos somos iguais, entretanto alguns são mais iguais do que outros, o senhor espera que haja justiça?
– Justiça? – repeti – Mas isto é uma metáfora...
– O senhor tem clareza sobre o fato de que pode se tornar um herói, seu Bloomfeld?
– Um herói? – menoscabei-me. – Não quero ser um herói... Aliás não sou um herói... Absolutamente não... Quero apenas poder sair de casa com tranqüilidade e ter certeza de que vou voltar. Quero o mesmo pra minha esposa, meus filhos, pra todo mundo. Eu tenho o direito de adquirir um carro importado se as minhas condições financeiras assim mo permitirem, e sem correr riscos de vida, e minha esposa tem o direito de usar jóias caras onde bem entender, e os meus filhos usar tênis com computador de bordo sem que um marginal delinquente encoste num fio de cabelos deles, ainda mais que nós vivemos num país que tem a maior carga tributária do mundo e o povo não vê o resultado disso!
– Isto é um absurdo, realmente, seu Bloomfeld... E na sua opinião, o que devemos fazer pra termos este quadro alterado?
– Desobediência civil generalizada! Ninguém paga mais um puto de imposto! Nada! Vamos levar esta sociedade venal e corrupta à bancarrota em todos os níveis...
– Mas o senhor não acha que assim os cidadãos de menos recursos seriam os primeiros a sucumbir?
– Acho. Mas alguma coisa tem de ser feita, Francine... Não podemos mais suportar uma sociedade tão desigual como a nossa...
– Nisso todos nós concordamos, independentemente de raça ou credo religioso.
– Mas temos que virar a cara também para a política do pão e circo; para que os artífices poderosos desta empreitada, escondidos em todas as instituições do planeta, compreendam que essas distrações obtusas, que eles tentam nos empurrar goela abaixo, não vão mais adiantar como manobra diversionista...
– Mas que o senhor entende como distrações engendradas pelo poder, seu Bloomfeld?
– O status quo tem muitas faces. Melhor seria dizer máscaras. Distrações como o esporte que desfralda a bandeira da pátria, como se aquilo fosse uma conquista de todo o povo brasileiro, quando apenas o é de uma esmagadora minoria, ainda que muitos desses “heróis” do esporte sejam oriundos das classes menos privilegiadas. Isto é uma falácia, uma embromação! Há muitos outros exemplos. Artistas, ou melhor, pseudo artistas e seus movimentos artísticos que não valem absolutamente nada e se tornam célebres com o apoio de diversas instituições de renome... Isto é outra injustiça! Quantos artistas de valor não encontram apoio oficial? E mesmo de uma mídia tendenciosa, movida por interesses espúrios! Isto é culpa da educação; mas não é só uma questão de ensinar ao cidadão boas maneiras, ou o valor cívico da pátria, a ler e escrever. Isto nós já temos! Há que se ensinar ao cidadão também valores estéticos, filosóficos, para que ele tenha ferramentas apropriadas para julgar aquilo que é realmente bom do que é ruim. Claro que não existe um valor absoluto neste caso. Por exemplo, entre vários grandes artistas sempre haverá certo consenso. Eu, particularmente, posso julgar Michelângelo melhor que Picasso, desprezando os valores históricos que moldaram um e outro, mas uma coisa é indiscutível: todos dois são monstros sagrados nas suas obras, tudo o mais é retórica.
– O senhor está afirmando uma coisa muito séria, seu Bloomfeld...
– Nada mais sério do que a realidade nua e crua...
– A realidade sob uma óptica subjetiva...
– Não há como fugir a isto, senhorita Preboste...
– Probvost, seu Boomfield.
– Bloomfeld, senhorita Probvost. Todos os valores que partem de uma avaliação estética são idiossincráticos a priori. Portanto são subjetivos em si.
– Vejo que o senhor é muito versado em filosofia...
– Até que não...
– Mas então o senhor afirma de pés juntos que o povo não tem valores estéticos?
– De pés separados eu confirmo, se a senhorita preferir. Os valores do povo são importados de uma elite que escolhe o que é de bom tom.
– Mas seu Bloomfeld, só pra nós entendermos... Se for a elite quem dá as cartas, o senhor reconhece, como bom homem político que é, que o senhor figura nos quadros desta elite execrável...
– Eu concordo, só qu’eu não possuo a mídia nas mãos ditando todas as tendências que devem ser seguidas. Eu gosto daquilo que gosto; quem não gostar, um abraço...
– Em outras palavras, seu Bloomfeld, quem não tem o gosto apurado é um degradante ignorante? O Cinema, as Artes Plásticas, a Literatura, o Teatro, a Música, etc., estão dominadas por um profundo mal gosto na atualidade?
– O que eu lamento muito, mas infelizmente estão sim...
– O senhor concorda também que isto é uma tendência geral na humanidade de hoje?
– Na medida em que o capital corrompe todos os valores, empenhado somente em interesses econômicos, é natural que todo o fundamento que norteia a arte, o didático implícito, passa a valer apenas e tão somente os valores do negócio...
– O senhor diria que a sociedade humana tornou-se mais cínica?
– Muito mais! Infinitamente mais, senhorita Francine. Hoje em dia qualquer jovem de treze anos tem muito mais malícia que um homem ou uma mulher de trinta anos tinham há quatro décadas... Tem até aquela música: “Não confie em ninguém com mais de trinta anos”... Hoje, nós teríamos que atualizar a letra...
– Pra quanto, seu Bloomfeld?
– Ah... Uns... Dez talvez... Eu não confiaria em ninguém com mais de dez anos...
– O senhor está exagerando...
– Estou? Minha filha, Taís, ainda não completou 8 anos. Outro dia, eu e minha esposa estávamos assistindo a um desses canais eróticos pela TV a cabo, crentes que as crianças já estavam dormindo, quando fomos surpreendidos por ela... Taís, ao contrário do que supúnhamos, estava no computador, desobedecendo nossas ordens de ir dormir. Quando ela chegou na sala, eu, num lance de puro reflexo, troquei de canal, mas não consegui evitar que ela olhasse o que nós estávamos assistindo. A senhorita sabe o que ela me falou?... “Podem continuar a ver esta porcaria, pai. É tudo encenação”.
– O senhor não digeriu, não foi?
– Minha filha, isto é uma prova cabal da ausência de inocência nos dias atuais...
– Qual é o fim da humanidade, seu Bloomfeld?
– Não estamos presenciando o fim, mas o início dele. As próprias mudanças climáticas anunciam...
– O que mais me admira, seu Bloomfeld, é que as poucas famílias que mandam no mundo também não terão para onde ir se o mundo acabar em 2012, a menos que sejam alienígenas!
– Nada, senhorita Probvost! A ignorância, a sede do poder, tolda-lhes a clareza de entendimento. Eu li em algum lugar que a pesquisa espacial tem como objetivo secreto justamente descobrir planetas como a Terra, aonde esta elite poderia emigrar num caso de catástrofe global...
– Mas seu Bloomfeld! Isto está cheirando à ficção científica!
– Infelizmente a realidade parece mais fictícia que a própria ficção, senhorita Probvost. O complexo industrial-militar tem razões que a própria razão desconhece. Há muito espaço nos subterrâneos deste mundo para se esconder espaçonaves capazes de atravessar as estrelas, e até mesmo realizar pesquisas com uma propulsão revolucionária que possibilite tais viagens, e isso bem longe dos olhos do público...
– Mas seu Bloomfeld! A estrela mais próxima de nós está a pouco mais de 4 anos-luz do sistema solar. O senhor acha que nós conseguiríamos chegar lá? E se não houver nenhum planeta compatível com as condições que nós encontramos na Terra? Será que no nosso sistema solar existem planetas próprios para sustentar a vida como conhecemos?
– Quem pode garantir o contrário? Quantas agências espaciais existem por aí enviando sondas, robôs, fotografando e mapeando esses planetas? Me parece que elas nos dão as informações que lhes interessam, ou seja, que não existem condições ambientais iguais as nossas em nenhum dos corpos celestes neste sistema solar... E se tudo isso fizer parte de uma grande mentira?
– Teoria da conspiração à uma hora dessas, seu Bloomfeld!
– A senhorita trabalha numa das maiores emissoras de televisão deste país. A senhorita sabe que os exemplos de conspiração na história abundam. Não serei eu a enumerá-los agora...
– Voltando à questão da acusação que pesa sobre o senhor... Seu Bloomfeld, o senhor acha que conseguirá uma defesa eficiente, ou não passa de um bode expiatório, para o caso de outros cidadãos como o senhor se rebelarem contra o sistema injusto que impera neste país?
– Eu acho que já existiram centenas de Bloomfelds no Brasil. Podem apagar o meu nome da história recente, mas outras centenas aparecerão... É sempre assim... As Forças Obscuras jamais governarão indenes. Eu proponho que nós mudemos o nome próprio deste país para República Defecativa do Brasil. E o lema de nossa bandeira deveria ser: Corrupção e Impunidade em Todos os Níveis. Isto soa bem democrático, não acha?
– Assim o senhor vai ser preso, seu Bloomfeld.
– Sob o ponto de vista da Física eu diria que é impossível...
– Porquê?
– Porque eu já estou preso.
– O senhor é um daqueles últimos românticos que acreditam que o socialismo é o melhor caminho para uma sociedade mais igualitária?
– Esta sociedade jamais será igualitária, senhorita Probvost. É uma questão cármica, inexorável... Adoro esta palavra! Não acredito em “ismos”, mas tenho certeza absoluta que a Democracia é um grande engodo...
– Então qual a solução?
– Acredito que ela já está bem encaminhada...
O agente responsável pela minha segurança e bem estar entrou esbaforido...
– A entrevista tem de encerrar agora!
– Porquê? – perguntei.
– O Delegado... Está a caminho...
A senhorita Francine Probvost, aquela mulher tão insinuante quanto destemida, teve de arrumar seus apetrechos eletrônicos às pressas...
Arranjei...
Naturalmente.
Ocorre que o problema não era este...
Virtualmente...
Não se pode falar de advogados...
Existe uma plêiade deles por aí...
Muito provavelmente Cláudia já havia entrado em contato com o meu...
Porém, é óbvio que o problema todo não dizia respeito a meia dúzia de advogados...
Que existisse uma grosa, admitamos...
Entretanto, potencialmente falando, filosoficamente dissertando sobre um tema que tece páginas e mais páginas a favor ou contra a instituição mais pacata que se tem notícia, não a mais desafortunada, com toda a certeza, o problema, definitivamente, não se resumia a isto...
Realmente.
Havia como que uma balbúrdia atrás de mim, vinda de fora, algum lugar; um burburinho incessante, um zunzum anárquico, com muitas vozes falando ao mesmo tempo. Vozes humanas, desordenadas...
Mas o que era isto?
Ninguém sabia.
O delegado não estava.
Quase era certo afirmar.
No entanto havia alguém...
Que conhecia o segredo de tantas vozes aflitas, tumultuosas...
O agente encarregado de minha segurança veio me comunicar...
Eu, entretanto, não esperei por suas explicações e fui logo indagando:
– O que está acontecendo aí fora?
– A imprensa sabe do seu caso... – disse ele.
– Meu caso?! – repliquei espantado.
Uma pausa um tanto longa, demasiado para o momento, inverossímil, poderia se dizer, intermediou-nos o diálogo.
– Como pode? – continuei indagando ainda admirado.
– Não sei – respondeu o agente, indiferente. Via-se que isto não despertava nenhuma emoção no seu ser...
Aparentemente.
– Não sabemos como... – continuou o agente consciente. – De repente eles começaram a chegar... Atraídos por alguma fala indeterminada, uma fonte de mel, mas que podemos presumir oriunda daqui mesmo... O fato é que todos julgam o seu caso muito peculiar... A imprensa quer respostas claras.
– A imprensa quer respostas claras?... Engraçado. Todos nós queremos.
– Eles querem entrevistar você...
– Mas porque o meu caso atraiu tanto interesse assim?
– Eu conversei com alguns deles... Por acaso... Eles acreditam que o seu caso é simbólico...
– Mas quem?!
– Não faça perguntas difíceis de responder, Bloomfeld! Acontece que este cidadão... Uma repórter, aliás, que julga o seu caso bastante emblemático, de uma sociedade que se julga em evolução e comete todo tipo de atrocidades. Exatamente como no seu caso...
– Eu não creio que a sociedade esteja cometendo uma atrocidade no meu caso em particular...
– Exatamente como ela falou.
– Mas com milhares de outros indivíduos menos favorecidos com certeza...
– Ela falou isso também...
– Menos instruídos...
– Paradoxal...
– Isso...
– Foi como ela colocou...
– Mas em relação ao quê?
– De como a sociedade se mostra esquizóide...
– Eu concordo.
– Deixando tantos loucos a solta...
– Veja você...
– Alguns deles exercendo cargos no governo...
– Me deixe falar com esses jornalistas...
– Eu não posso, Bloomfeld.
– Porquê?
– Ordens do Delegado.
– O Delegado não pode inibir a divulgação da informação...
– Não compete a mim julgar, Bloomfeld...
– Mas está na constituição!
– Você é advogado?
– Eu não preciso ser advogado para conhecer os meus direitos, ora!
– Você tem certeza, Bloomfeld?
– Claro homem! Todos os cidadãos têm o direito de opinar sobre qualquer assunto... A bronca é livre. Portanto, se os jornalistas querem divulgar a minha história deixe-os entrar...
– Você fica sendo o único responsável pela presença deles aqui, Bloomfeld...
– Deixa comigo...
O agente se retirou estranhamente amuado. Talvez ele estivesse com medo do Delegado...
É natural...
Todo mundo tem medo da polícia...
Bem...
O agente chamou a imprensa...
Eles invadiram o pequeno recinto onde eu estava detido...
Por um momento eu pensei em sair para deixá-los mais à vontade, mas isto seria uma incoerência...
As coisas se encaminhavam exatamente como estavam previstas, ou seja...
À imprensa, todas as informações disponíveis, e ao povo...
Migalhas, filigranas de conhecimento, para que ele continue povo, com direito ao eterno voto e nada mais.
Uma jovem muito bonita, porém magra demais, pele excessivamente pálida, e os cabelos vermelhos, incluindo as unhas, e uma idade que orçava lá pelos idos da década de trinta, mais velha do que Cláudia, com certeza, mas infinitamente mais sensual, sombras nos olhos, e na alma, mais obumbrosa, posto que o seu conhecimento geral não lhe permitisse ir além...
Vender notícias tolas...
Sem contribuir para a transformação de uma sociedade banal.
Os dedos seguravam com força um microfone. Nas mãos dela um objeto quase fálico, pensei...
E as unhas, vermelhas...
Quando cheguei à conclusão deste vocábulo quase inútil...
Unha...
Não era uma palavra que a literatura repetisse com freqüência...
Unha...
Francine...
Perguntei-lhe seu nome...
Ela respondeu com um sorriso encantador, convidativo, e pronunciou seu nome com um acento infantil, sempre sorrindo...
Francine Probvost.
Os nomes dessas jornalistas ultimamente tinham se tornado tão estranhos...
Uma origem que remontava às tradições renanas...
Francine fez-me a primeira pergunta...
O sujeito que a acompanhava, aliás dois, um cameraman e um caboman, quase enfiaram aquela câmera na minha cara!
– O senhor se considera vítima de uma sociedade anacrônica?
Sinceramente...
Não esperava uma pergunta assim.
– Totalmente – respondi.
– Esta sociedade onde todos somos iguais, entretanto alguns são mais iguais do que outros, o senhor espera que haja justiça?
– Justiça? – repeti – Mas isto é uma metáfora...
– O senhor tem clareza sobre o fato de que pode se tornar um herói, seu Bloomfeld?
– Um herói? – menoscabei-me. – Não quero ser um herói... Aliás não sou um herói... Absolutamente não... Quero apenas poder sair de casa com tranqüilidade e ter certeza de que vou voltar. Quero o mesmo pra minha esposa, meus filhos, pra todo mundo. Eu tenho o direito de adquirir um carro importado se as minhas condições financeiras assim mo permitirem, e sem correr riscos de vida, e minha esposa tem o direito de usar jóias caras onde bem entender, e os meus filhos usar tênis com computador de bordo sem que um marginal delinquente encoste num fio de cabelos deles, ainda mais que nós vivemos num país que tem a maior carga tributária do mundo e o povo não vê o resultado disso!
– Isto é um absurdo, realmente, seu Bloomfeld... E na sua opinião, o que devemos fazer pra termos este quadro alterado?
– Desobediência civil generalizada! Ninguém paga mais um puto de imposto! Nada! Vamos levar esta sociedade venal e corrupta à bancarrota em todos os níveis...
– Mas o senhor não acha que assim os cidadãos de menos recursos seriam os primeiros a sucumbir?
– Acho. Mas alguma coisa tem de ser feita, Francine... Não podemos mais suportar uma sociedade tão desigual como a nossa...
– Nisso todos nós concordamos, independentemente de raça ou credo religioso.
– Mas temos que virar a cara também para a política do pão e circo; para que os artífices poderosos desta empreitada, escondidos em todas as instituições do planeta, compreendam que essas distrações obtusas, que eles tentam nos empurrar goela abaixo, não vão mais adiantar como manobra diversionista...
– Mas que o senhor entende como distrações engendradas pelo poder, seu Bloomfeld?
– O status quo tem muitas faces. Melhor seria dizer máscaras. Distrações como o esporte que desfralda a bandeira da pátria, como se aquilo fosse uma conquista de todo o povo brasileiro, quando apenas o é de uma esmagadora minoria, ainda que muitos desses “heróis” do esporte sejam oriundos das classes menos privilegiadas. Isto é uma falácia, uma embromação! Há muitos outros exemplos. Artistas, ou melhor, pseudo artistas e seus movimentos artísticos que não valem absolutamente nada e se tornam célebres com o apoio de diversas instituições de renome... Isto é outra injustiça! Quantos artistas de valor não encontram apoio oficial? E mesmo de uma mídia tendenciosa, movida por interesses espúrios! Isto é culpa da educação; mas não é só uma questão de ensinar ao cidadão boas maneiras, ou o valor cívico da pátria, a ler e escrever. Isto nós já temos! Há que se ensinar ao cidadão também valores estéticos, filosóficos, para que ele tenha ferramentas apropriadas para julgar aquilo que é realmente bom do que é ruim. Claro que não existe um valor absoluto neste caso. Por exemplo, entre vários grandes artistas sempre haverá certo consenso. Eu, particularmente, posso julgar Michelângelo melhor que Picasso, desprezando os valores históricos que moldaram um e outro, mas uma coisa é indiscutível: todos dois são monstros sagrados nas suas obras, tudo o mais é retórica.
– O senhor está afirmando uma coisa muito séria, seu Bloomfeld...
– Nada mais sério do que a realidade nua e crua...
– A realidade sob uma óptica subjetiva...
– Não há como fugir a isto, senhorita Preboste...
– Probvost, seu Boomfield.
– Bloomfeld, senhorita Probvost. Todos os valores que partem de uma avaliação estética são idiossincráticos a priori. Portanto são subjetivos em si.
– Vejo que o senhor é muito versado em filosofia...
– Até que não...
– Mas então o senhor afirma de pés juntos que o povo não tem valores estéticos?
– De pés separados eu confirmo, se a senhorita preferir. Os valores do povo são importados de uma elite que escolhe o que é de bom tom.
– Mas seu Bloomfeld, só pra nós entendermos... Se for a elite quem dá as cartas, o senhor reconhece, como bom homem político que é, que o senhor figura nos quadros desta elite execrável...
– Eu concordo, só qu’eu não possuo a mídia nas mãos ditando todas as tendências que devem ser seguidas. Eu gosto daquilo que gosto; quem não gostar, um abraço...
– Em outras palavras, seu Bloomfeld, quem não tem o gosto apurado é um degradante ignorante? O Cinema, as Artes Plásticas, a Literatura, o Teatro, a Música, etc., estão dominadas por um profundo mal gosto na atualidade?
– O que eu lamento muito, mas infelizmente estão sim...
– O senhor concorda também que isto é uma tendência geral na humanidade de hoje?
– Na medida em que o capital corrompe todos os valores, empenhado somente em interesses econômicos, é natural que todo o fundamento que norteia a arte, o didático implícito, passa a valer apenas e tão somente os valores do negócio...
– O senhor diria que a sociedade humana tornou-se mais cínica?
– Muito mais! Infinitamente mais, senhorita Francine. Hoje em dia qualquer jovem de treze anos tem muito mais malícia que um homem ou uma mulher de trinta anos tinham há quatro décadas... Tem até aquela música: “Não confie em ninguém com mais de trinta anos”... Hoje, nós teríamos que atualizar a letra...
– Pra quanto, seu Bloomfeld?
– Ah... Uns... Dez talvez... Eu não confiaria em ninguém com mais de dez anos...
– O senhor está exagerando...
– Estou? Minha filha, Taís, ainda não completou 8 anos. Outro dia, eu e minha esposa estávamos assistindo a um desses canais eróticos pela TV a cabo, crentes que as crianças já estavam dormindo, quando fomos surpreendidos por ela... Taís, ao contrário do que supúnhamos, estava no computador, desobedecendo nossas ordens de ir dormir. Quando ela chegou na sala, eu, num lance de puro reflexo, troquei de canal, mas não consegui evitar que ela olhasse o que nós estávamos assistindo. A senhorita sabe o que ela me falou?... “Podem continuar a ver esta porcaria, pai. É tudo encenação”.
– O senhor não digeriu, não foi?
– Minha filha, isto é uma prova cabal da ausência de inocência nos dias atuais...
– Qual é o fim da humanidade, seu Bloomfeld?
– Não estamos presenciando o fim, mas o início dele. As próprias mudanças climáticas anunciam...
– O que mais me admira, seu Bloomfeld, é que as poucas famílias que mandam no mundo também não terão para onde ir se o mundo acabar em 2012, a menos que sejam alienígenas!
– Nada, senhorita Probvost! A ignorância, a sede do poder, tolda-lhes a clareza de entendimento. Eu li em algum lugar que a pesquisa espacial tem como objetivo secreto justamente descobrir planetas como a Terra, aonde esta elite poderia emigrar num caso de catástrofe global...
– Mas seu Bloomfeld! Isto está cheirando à ficção científica!
– Infelizmente a realidade parece mais fictícia que a própria ficção, senhorita Probvost. O complexo industrial-militar tem razões que a própria razão desconhece. Há muito espaço nos subterrâneos deste mundo para se esconder espaçonaves capazes de atravessar as estrelas, e até mesmo realizar pesquisas com uma propulsão revolucionária que possibilite tais viagens, e isso bem longe dos olhos do público...
– Mas seu Bloomfeld! A estrela mais próxima de nós está a pouco mais de 4 anos-luz do sistema solar. O senhor acha que nós conseguiríamos chegar lá? E se não houver nenhum planeta compatível com as condições que nós encontramos na Terra? Será que no nosso sistema solar existem planetas próprios para sustentar a vida como conhecemos?
– Quem pode garantir o contrário? Quantas agências espaciais existem por aí enviando sondas, robôs, fotografando e mapeando esses planetas? Me parece que elas nos dão as informações que lhes interessam, ou seja, que não existem condições ambientais iguais as nossas em nenhum dos corpos celestes neste sistema solar... E se tudo isso fizer parte de uma grande mentira?
– Teoria da conspiração à uma hora dessas, seu Bloomfeld!
– A senhorita trabalha numa das maiores emissoras de televisão deste país. A senhorita sabe que os exemplos de conspiração na história abundam. Não serei eu a enumerá-los agora...
– Voltando à questão da acusação que pesa sobre o senhor... Seu Bloomfeld, o senhor acha que conseguirá uma defesa eficiente, ou não passa de um bode expiatório, para o caso de outros cidadãos como o senhor se rebelarem contra o sistema injusto que impera neste país?
– Eu acho que já existiram centenas de Bloomfelds no Brasil. Podem apagar o meu nome da história recente, mas outras centenas aparecerão... É sempre assim... As Forças Obscuras jamais governarão indenes. Eu proponho que nós mudemos o nome próprio deste país para República Defecativa do Brasil. E o lema de nossa bandeira deveria ser: Corrupção e Impunidade em Todos os Níveis. Isto soa bem democrático, não acha?
– Assim o senhor vai ser preso, seu Bloomfeld.
– Sob o ponto de vista da Física eu diria que é impossível...
– Porquê?
– Porque eu já estou preso.
– O senhor é um daqueles últimos românticos que acreditam que o socialismo é o melhor caminho para uma sociedade mais igualitária?
– Esta sociedade jamais será igualitária, senhorita Probvost. É uma questão cármica, inexorável... Adoro esta palavra! Não acredito em “ismos”, mas tenho certeza absoluta que a Democracia é um grande engodo...
– Então qual a solução?
– Acredito que ela já está bem encaminhada...
O agente responsável pela minha segurança e bem estar entrou esbaforido...
– A entrevista tem de encerrar agora!
– Porquê? – perguntei.
– O Delegado... Está a caminho...
A senhorita Francine Probvost, aquela mulher tão insinuante quanto destemida, teve de arrumar seus apetrechos eletrônicos às pressas...
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