VIII
Eram cerca de dez horas da manhã daquele mesmo domingo quando o Juiz de Direito entrou na delegacia acompanhado do delegado titular, o mesmo com cara de urubu...
Nós três nos reunimos na sala do delegado...
Sala trancada.
O Juiz me encarava com aquela expressão de quem havia acabado de se sujar com merda...
Eu estava tão cansado, enfastiado, faminto, que nem me dei ao luxo de ter qualquer reação de medo ou ameaça iminente...
Não pensava nem em Cláudia nem nas crianças...
O meu trabalho...
Nem parecia que eu tivera um algum dia...
Era tudo tão absurdo...
Não havia nexo nesta realidade banal...
Aliás, não era por acaso que os hindus a denominavam Maya. Ilusão.
O delegado começou, inquirindo-me:
– Você sabe porque o Juiz de Direito veio aqui hoje, não sabe, Bloomfeld?
Eu não tinha a mais remota idéia.
– Ele veio, Bloomfeld, porque deseja entrar num acordo com o senhor...
Um acordo? Que espécie de acordo um homem como ele, que tinha o céu e a terra nas mãos, ia querer comigo?
– Hoje é domingo, Bloomfeld – continuou o delegado. – Dia que todos nós devíamos estar em casa... Com nossas famílias... Mas não!... O Juiz se dispôs a vir aqui hoje conversar consigo...
E eu, automaticamente, sem pensar:
– Conversar o quê, senhores?
O Juiz e o Delegado se encararam...
Expressão estapafúrdia, algo desconexa, com interjeições cabriolantes...
– Senhor Bloomfeld – começou o Juiz, sério, mas um tanto enfarado. – Acho que não lhe escapa que o senhor me causou um grande prejuízo...
– Não senhor – retorqui, sério também, mas com dignidade, sem perder o juízo, o que era quase impossível, porém indignado por dentro. – O senhor é que não imagina o meu prejuízo...
– Vamos colocar a coisa numa balança... – definitivamente o Juiz suprimira o patronímico, não sem razão, o que me causava certo receio. – Qual o prejuízo que o senhor imputa como o de maior dano para a sociedade? Aquele causado a um Juiz de Direito, em plena urgência de sua missão, ou a de um simples particular, que, na pior das hipóteses, prejudicaria apenas e tão somente os destinos de uma família?
– Eu acredito, Senhor Juiz, que o prejudicado maior reside na sociedade...
– Exatamente Bloomfeld! Exatamente! E o senhor impediu a ação dela com sua desatenção no trânsito!
O Delegado não intervinha. De propósito. Acuado por forças superiores.
– Mas Senhor Juiz! Se o senhor fizer um exame de consciência, um profundo e sincero exame de consciência, verá que eu não tive culpa alguma...
– Bloomfeld – volveu o Juiz com um desabafo de tragédia grega. – Como você está equivocado...
– Eu, Senhor? Equivocado?
– Completamente, Bloomfeld. Absolutamente. Totalmente Inteiramente... Faltou algum termo?
Ele perguntou ao Delegado.
– Creio que sim, Senhor...
– Qual?
– Universalmente.
– Ah, bom. Nesse caso derivamos para uma grandeza superior... Bloomfeld, Bloomfeld – tornou o Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito. – Você não sabe o que é injustiça, Bloomfeld...
– Acho que o Senhor tem razão, Senhor... Há dois dias eu tinha um bom emprego, uma família bem alimentada e mais ou menos educada, que nunca se privara de nada nesta vida, apesar de que não tivesse lá muita evolução espiritual não, mas...
– Este não é o ponto, Bloomfeld – continuou o Juiz, taxativo.
– Qual é o ponto então, Senhor?
– A questão aqui é se o senhor sabe o que é injustiça...
– O Senhor anda na rua?
– O que isso tem a ver com o ponto ora observado?
– Onde o Senhor mora o Senhor ouve os tiros dos bandidos encastelados nas favelas?
– Bloomfeld. Onde o senhor está querendo chegar?
– Nas favelas. Existe maior monumento em homenagem à Injustiça, com letra maiúscula, que a presença de favelas na nossa cidade?
– Este é um problema histórico, Bloomfeld!
– Exatamente, Senhor...
– O senhor está confundindo as coisas, Bloomfeld...
– O Senhor é que não quer enxergar...
– Qual a relação que há entre um erro infantil no trânsito, um erro da sua parte, diga-se de passagem, e a existência das favelas?
– A relação é óbvia, Juiz!
– Quão óbvia é a sua má conduta no trânsito, Bloomfeld!
– Reconheça Bloomfeld – disse o Delegado. – A sua causa está perdida.
– Não! – disse eu desesperado. – Vocês só podem estar brincando comigo...
– E eu sou lá homem de brincar com coisas sérias?! – replicou o Juiz.
– Está claro que a existência das favelas está muito mais ligado aos erros históricos que nossa sociedade cometeu nos últimos 100 anos! – desabafei.
– Esses erros, Bloomfeld – vociferou o Juiz – não tiram o mérito da acusação que pesa sobre ti!
– As injustiças sociais de hoje são um reflexo de uma ação acumulativa no tempo! A sociedade brasileira foi construída na injustiça, na corrupção, na impunidade, e não poderá ser corrigida se os erros históricos não forem reparados...
– Que asneira é esta que você está falando, Bloomfeld! – o Juiz continuava a defender sua indefensável causa. – A sociedade brasileira evoluiu mais nestes últimos 20 anos do que em 5 séculos de história.
– Nós podemos ver esta evolução por toda a parte... Esta noite qu’eu passei aqui eu pude comprovar vários desses exemplos desta evolução astronômica, não é mesmo Delegado?
– Admita Bloomfeld – tornou o Juiz, altivo. – Sua fraqueza é notória. Você jamais poderá remar contra a correnteza...
– Você é culpado, Bloomfeld! – volveu o Delegado, enfático. – Assine esta petição e tudo estará sanado...
– Assine Bloomfeld! – proferiu o Juiz, enérgico. – Aproveite a chance que lhe damos...
Eu, Haroldo Bloomfeld, abaixo assinado, reconheço a impotência a que um cidadão de bem é submetido, perante as leis do Estado, da Família, da Religião, e a si mesmo, como uma das criaturas mais privilegiadas, e ao mesmo tempo, mais desgraçadas de todo o universo, reconhecendo também que não possuo a mais ligeira idéia da minha própria condição infeliz, aceitando tudo o que me for oferecido...
Assim...
Sofregamente...
Um fraco, um escolho, um náufrago miserável, qual mendigo sem lar...
– Vamos Bloomfeld! – exclamou o Juiz exasperado. – O que você está esperando para assumir a sua culpa?
– O que mais o Senhor exige que eu faça?
– Depois que você assinar esta petição, Bloomfeld – volveu o Delegado brandamente, antes de enterrar o punhal até o cabo. – é só esperar o dia do julgamento...
– Acho bom o senhor arranjar um bom advogado, Bloomfeld – sentenciou o Juiz.
Eram cerca de dez horas da manhã daquele mesmo domingo quando o Juiz de Direito entrou na delegacia acompanhado do delegado titular, o mesmo com cara de urubu...
Nós três nos reunimos na sala do delegado...
Sala trancada.
O Juiz me encarava com aquela expressão de quem havia acabado de se sujar com merda...
Eu estava tão cansado, enfastiado, faminto, que nem me dei ao luxo de ter qualquer reação de medo ou ameaça iminente...
Não pensava nem em Cláudia nem nas crianças...
O meu trabalho...
Nem parecia que eu tivera um algum dia...
Era tudo tão absurdo...
Não havia nexo nesta realidade banal...
Aliás, não era por acaso que os hindus a denominavam Maya. Ilusão.
O delegado começou, inquirindo-me:
– Você sabe porque o Juiz de Direito veio aqui hoje, não sabe, Bloomfeld?
Eu não tinha a mais remota idéia.
– Ele veio, Bloomfeld, porque deseja entrar num acordo com o senhor...
Um acordo? Que espécie de acordo um homem como ele, que tinha o céu e a terra nas mãos, ia querer comigo?
– Hoje é domingo, Bloomfeld – continuou o delegado. – Dia que todos nós devíamos estar em casa... Com nossas famílias... Mas não!... O Juiz se dispôs a vir aqui hoje conversar consigo...
E eu, automaticamente, sem pensar:
– Conversar o quê, senhores?
O Juiz e o Delegado se encararam...
Expressão estapafúrdia, algo desconexa, com interjeições cabriolantes...
– Senhor Bloomfeld – começou o Juiz, sério, mas um tanto enfarado. – Acho que não lhe escapa que o senhor me causou um grande prejuízo...
– Não senhor – retorqui, sério também, mas com dignidade, sem perder o juízo, o que era quase impossível, porém indignado por dentro. – O senhor é que não imagina o meu prejuízo...
– Vamos colocar a coisa numa balança... – definitivamente o Juiz suprimira o patronímico, não sem razão, o que me causava certo receio. – Qual o prejuízo que o senhor imputa como o de maior dano para a sociedade? Aquele causado a um Juiz de Direito, em plena urgência de sua missão, ou a de um simples particular, que, na pior das hipóteses, prejudicaria apenas e tão somente os destinos de uma família?
– Eu acredito, Senhor Juiz, que o prejudicado maior reside na sociedade...
– Exatamente Bloomfeld! Exatamente! E o senhor impediu a ação dela com sua desatenção no trânsito!
O Delegado não intervinha. De propósito. Acuado por forças superiores.
– Mas Senhor Juiz! Se o senhor fizer um exame de consciência, um profundo e sincero exame de consciência, verá que eu não tive culpa alguma...
– Bloomfeld – volveu o Juiz com um desabafo de tragédia grega. – Como você está equivocado...
– Eu, Senhor? Equivocado?
– Completamente, Bloomfeld. Absolutamente. Totalmente Inteiramente... Faltou algum termo?
Ele perguntou ao Delegado.
– Creio que sim, Senhor...
– Qual?
– Universalmente.
– Ah, bom. Nesse caso derivamos para uma grandeza superior... Bloomfeld, Bloomfeld – tornou o Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito. – Você não sabe o que é injustiça, Bloomfeld...
– Acho que o Senhor tem razão, Senhor... Há dois dias eu tinha um bom emprego, uma família bem alimentada e mais ou menos educada, que nunca se privara de nada nesta vida, apesar de que não tivesse lá muita evolução espiritual não, mas...
– Este não é o ponto, Bloomfeld – continuou o Juiz, taxativo.
– Qual é o ponto então, Senhor?
– A questão aqui é se o senhor sabe o que é injustiça...
– O Senhor anda na rua?
– O que isso tem a ver com o ponto ora observado?
– Onde o Senhor mora o Senhor ouve os tiros dos bandidos encastelados nas favelas?
– Bloomfeld. Onde o senhor está querendo chegar?
– Nas favelas. Existe maior monumento em homenagem à Injustiça, com letra maiúscula, que a presença de favelas na nossa cidade?
– Este é um problema histórico, Bloomfeld!
– Exatamente, Senhor...
– O senhor está confundindo as coisas, Bloomfeld...
– O Senhor é que não quer enxergar...
– Qual a relação que há entre um erro infantil no trânsito, um erro da sua parte, diga-se de passagem, e a existência das favelas?
– A relação é óbvia, Juiz!
– Quão óbvia é a sua má conduta no trânsito, Bloomfeld!
– Reconheça Bloomfeld – disse o Delegado. – A sua causa está perdida.
– Não! – disse eu desesperado. – Vocês só podem estar brincando comigo...
– E eu sou lá homem de brincar com coisas sérias?! – replicou o Juiz.
– Está claro que a existência das favelas está muito mais ligado aos erros históricos que nossa sociedade cometeu nos últimos 100 anos! – desabafei.
– Esses erros, Bloomfeld – vociferou o Juiz – não tiram o mérito da acusação que pesa sobre ti!
– As injustiças sociais de hoje são um reflexo de uma ação acumulativa no tempo! A sociedade brasileira foi construída na injustiça, na corrupção, na impunidade, e não poderá ser corrigida se os erros históricos não forem reparados...
– Que asneira é esta que você está falando, Bloomfeld! – o Juiz continuava a defender sua indefensável causa. – A sociedade brasileira evoluiu mais nestes últimos 20 anos do que em 5 séculos de história.
– Nós podemos ver esta evolução por toda a parte... Esta noite qu’eu passei aqui eu pude comprovar vários desses exemplos desta evolução astronômica, não é mesmo Delegado?
– Admita Bloomfeld – tornou o Juiz, altivo. – Sua fraqueza é notória. Você jamais poderá remar contra a correnteza...
– Você é culpado, Bloomfeld! – volveu o Delegado, enfático. – Assine esta petição e tudo estará sanado...
– Assine Bloomfeld! – proferiu o Juiz, enérgico. – Aproveite a chance que lhe damos...
Eu, Haroldo Bloomfeld, abaixo assinado, reconheço a impotência a que um cidadão de bem é submetido, perante as leis do Estado, da Família, da Religião, e a si mesmo, como uma das criaturas mais privilegiadas, e ao mesmo tempo, mais desgraçadas de todo o universo, reconhecendo também que não possuo a mais ligeira idéia da minha própria condição infeliz, aceitando tudo o que me for oferecido...
Assim...
Sofregamente...
Um fraco, um escolho, um náufrago miserável, qual mendigo sem lar...
– Vamos Bloomfeld! – exclamou o Juiz exasperado. – O que você está esperando para assumir a sua culpa?
– O que mais o Senhor exige que eu faça?
– Depois que você assinar esta petição, Bloomfeld – volveu o Delegado brandamente, antes de enterrar o punhal até o cabo. – é só esperar o dia do julgamento...
– Acho bom o senhor arranjar um bom advogado, Bloomfeld – sentenciou o Juiz.
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