X
O Delegado entrou atabalhoadamente, tropeçando nos cabos que se cruzavam no chão por todos os lados, à maneira de raízes, enfurecido, maldizendo o “filho da puta que transformou esta delegacia num circo!”
– Se eu pegar o infeliz eu fuzilo ele!
Ele berrou uma série de impropérios desqualificados impublicáveis descartáveis neste momento por pura questão estética digamos assim. Nenhum dos ofendidos houve por bem responder, até porque não foram encontrados. Ainda bem, porque, se o fizessem, atrairiam todo o rancor e ódio de um pretenso servidor da lei.
Esta era outra coisa, Haroldo Bloomfeld bem o sabia, apenas afeita aos alfarrábios civis, e não para ser considerada na prática, uma vez que a Lei, com letra maiúscula, era uma gazeteira de primeira em terras tupiniquins.
– O que está acontecendo aqui, Bloomfeld?
– Eu virei notícia, delegado...
– Você o quê?!
– Parece que a imprensa acredita que o meu caso pode gerar uma mudança histórica neste país...
– É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que o Brasil mudar, Bloomfeld.
– O senhor tem um camelo aí?
– Quem permitiu que eles entrassem?
– Isso vai ser difícil o senhor descobrir...
– Porquê?
– O senhor não sabe que a imprensa faz parte do jogo?
– Que jogo, Bloomfeld? Seja explícito!
– Todo mundo acha que a imprensa cumpre um papel cidadão...
– E você, o que você acha?
– Eu não acho, tenho certeza que tudo não passa de encenação.
– Mas como eles entraram aqui?! – expressei-me com um gesto vago, não sabia, foi o que dei a entender. O Delegado não gostou. – Quem foi o filho de uma cadela que permitiu?
– Eles entram em qualquer lugar, Delegado! Até nos porões do Vaticano, quando isto interessa ao jogo...
– Mas você falou à vontade, não falou?
– Pois é... Eu me pergunto qual é a estratégia desta vez.
– O que você falou a eles, Bloomfeld?
– Falei aquilo que tinha de falar... O que me está engasgado, mas não parece que tenha solução...
– O que você espera conseguir com isto?
– A minha liberdade.
– Esta depende da Justiça...
– Então o meu caso é quase perdido, não é mesmo Delegado?
– Isto vai depender de uma série de fatores, Bloomfeld. Você já ligou pro seu advogado?
– Como, se eu não posso nem fazer cocô em paz?
– As coisas vão mudar, Bloomfeld... Daqui pra frente as coisa vão melhorar... Pode ter certeza disto...
– Eu duvido muito...
– O Brasil está vivendo uma fase histórica de prosperidade e desenvolvimento. Nunca tantos comeram tão bem na sua vida...
– Tão poucos com tanto; tantos com quase nada...
– A economia brasileira, hoje, é uma das mais sólidas do globo...
– No entanto, as favelas só fazem aumentar, e viram cartões postais...
– Nossa produção agrícola cresce a cada ano. O Brasil pode se transformar no Celeiro do Mundo!...
– Todavia, a distribuição de terras continua sendo uma das mais injustas do planeta...
– Pegue o telefone, Bloomfeld...
– Porquê?
– Faça a sua aposta...
– O mundo blefa, Delegado...
– Bloomfeld, meu irmão...
E o delegado proferiu a frase como um pastor evangélico monomaníaco, aparentando grande calor humano, mas no fundo, no fundo, um papagaio recitador de versículos.
– Se você soubesse o qu’eu sei...
Ele tentou continuar, à maneira de um doce vigário católico de olhos vulpinos, mas eu não dei atenção...
Pensava na minha Cláudia, a cuidar dos pequenos sozinha, sem um amanhã definido, definível... Que educação ela poderia dar-lhes? Num mundo tão conturbado filosoficamente, cujas utopias deixaram de exercer seu papel mais importante, que é justamente o de guardar alguma esperança no coração humano...
Onde estão essas utopias?
Pobre mundo...
Elas desapareceram, cooptadas pelo Mercado de Ações.
Eu ouvia o Delegado matraquear sua litania insalubre, mas ela semelhava ao coaxar sem sentido de algumas rãs primaveris, cuja real estação passava por um up grade cósmico.
– Ligue pro seu advogado, Bloomfeld...
O Delegado insistiu.
– Qualquer coisa é melhor do que um farrapo humano, que perdeu o respeito junto a seus pares...
– Neste ponto eu diria, Delegado, que aí ele galgou sua verdadeira posição... Subiu na escala das hierarquias celestiais...
– Como pode um pobre mendigo ousar querer ser como um anjo?
– Talvez ele só seja um farrapo na aparência...
– Não recomece com suas tolices, Bloomfeld. Seu erro maior foi desrespeitar um juiz, depois foi negar sua mão estendida...
– Para um homem que despertou para a realidade tal como ela é, esta mão só o pode conduzir ao cadafalso.
– Ligue pro seu advogado, Bloomfeld, embora eu, particularmente, acredite, pela minha experiência nestes casos, que o seu está perdido. Faça a ligação assim mesmo.
– Eu não sei se minha esposa teve tempo de ligar pra ele...
– Então ligue pra ela...
Dois dias depois o filisteu apareceu na delegacia...
Doutor Zanabria era um homem um pouco mais velho que eu. Estudara direito nas melhores universidades do mundo, vestia-se impecavelmente bem, falava ainda melhor, e convencia a maioria com quem lidava, com aquele seu sorriso cúmplice com covinhas à direita e à esquerda de uma boca verdadeiramente esgarçada. Possuía alguns cabelos grisalhos, porém cheios, e sem a vaidade de pintá-los. Possuía também uma vista quase intacta, e, curiosamente, um olho verde e o outro azul. Eu costumava brincar com Zanabria nos bons tempos, dizendo-lhe que aquele olho verde lhe fora dado para que ele enxergasse melhor as “verdinhas”, e o azul significava o mar puro do Nordeste, aonde ele iria depois de amealhar um bom número das “verdinhas”. Afora isso, ele não apresentava assim outras características que o destacassem na multidão, a não ser aquela cara eternamente lisa, pronta a escorregar nas situações as mais difíceis.
– Bom dia, Bloomfeld – encetou ele com um sorriso como se tivesse ganho um bilhete premiado. – Cláudia me ligou... – de fato eu não sabia se ela havia lhe adiantado alguma coisa, fruto das nossas economias de toda uma vida de lutas, muito provavelmente agora prestes a ser dilapidada pelo mui caríssimo amigo doutor Zanabria. – Peço-lhe mil desculpas, mas eu só pude vir hoje...
– Não tem problema, desde que você me tire daqui...
– Esta parte vai exigir realmente toda a minha sapiência neste negócio... – volveu ele, eu diria quase cínico. – Não vai ser nada fácil, porém... – continuou reticente. – Nós vamos conseguir... Estava envolvido num caso... Como vou lhe dizer? Um beco sem saída... A história é a seguinte... Um homem muito bem relacionado... – Zanabria fez gesto indicando muita grana. – Matou sua esposa... Uma beleza de mulher!... Daquelas que um bom filho da puta faria qualquer coisa para manter... Mas este meu cliente, mesmo assim, não conseguiu... Um corno!... Literalmente... E, pasme, Bloomfeld, esta maravilhosa mulher... – Zanabria abriu sua pasta, retirando uma fotografia dela e passou a mim. Realmente... Uma loura... Que beleza! – Este avião aí, acredite ou não, estava traindo o meu cliente... – novo gesto indicando dinheiro – Adivinhe... Com um passista de escola de samba... Um negão magrelo... Muito bom dançarino, diga-se de passagem, dito por ela... Mas um caniço, Bloomfeld... Bons dentes e tudo, só tu vendo... Parece feito de espaguete... Esse neguinho mora na Mangueira, Bloomfeld... E ela deu um carro zero pra ele... Este meu cliente, corno assumido, homem muito bem relacionado, não se sabe como, muito provavelmente alguém entregou sua mulher em troca de uma boa soma, descobriu tudo... Ele botou um detetive particular na cola dela, Bloomfeld...
– Já sei onde esta história vai acabar...
– Calma!... Um belo dia, o tal do detetive ligou pro meu cliente... O homem estava no meio de uma reunião importantíssima!... Negócios com o exterior e o caralho!... Pois ele largou a reunião... Foda-se! – Zanabria começou a rir, aparentemente sem nenhum motivo, entusiasmado com sua narrativa. – O detetive bateu pra ele todo o serviço... A mulher dele estava num motel de luxo na Zona Sul com o tal neguinho passista da Mangueira... Meu cliente... Não posso dizer o nome, pô!... Pagou uma propina alta e invadiu o quarto onde os dois estavam transando... Descarregou o pente da arma nos dois... Morreram na hora... Os dois... O julgamento acabou ontem à tarde... Ele foi absolvido...
– Sob qual alegação?
– Legítima defesa da honra...
– Ah, não!...
– Tô te dizendo, rapaz...
– Zanabria, você é um herói!
– Apenas competente, Bloomfeld...
– Trinta anos depois de Doca Street...
– Eu usei argumentos mais convincentes...
– Tipo?
– “A família brasileira está ameaçada!”... Não podemos aceitar este tipo de desvio moral!”... Eles têm três filhos, Bloomfeld... Pô!
Zanabria interpretava como se estivesse pregando à multidão.
– Que panacéia!
– Colou, não colou?
– Zanabria, sinceramente... Eu não sei onde nós vamos parar.
– O Céu é o limite, meu caro Bloomfeld.
– Talvez seja melhor nós designarmos por Inferno...
– Nós temos que pensar grande, meu rapaz...
– Meu pai já me dizia isso...
– Você aproveitou?
– Algumas coisas. Com o tempo eu vi que muita coisa estava errada, mas assim são os conflitos de gerações. Muitas coisas que nossos avôs viam como erradas, no tempo dos nossos pais revelaram-se futilidades, e assim nós chegamos aqui...
– Eu diria que você chegou ao fundo do poço, Bloomfeld...
– Cheguei à pior das conclusões, Zanabria, só isso...
– A verdade, Bloomfeld, é que muitos de nós percebemos que a vida se tornou impossível sob a face da Terra, mas nós não podemos admitir isso assim... em público.
– E ai daqueles que resolvem ficar nus em plena praça pública...
– Esses tem de ser internados como loucos... Incomunicáveis!
– Mas porquê?
– Autopreservação.
– Nós estamos implodindo!
– Eu sei disso. Você sabe. Os cientistas concordam. Entretanto urge que continuemos a embalar a multidão...
– Ela tem que acordar...
– Não se preocupe, Bloomfeld, há leitos para todos. O Maracanã, a Marques de Sapucaí...
– Há homens como nós, Zanabria...
– Que homens o quê! Espectros é o que somos...
– Reaja, homem!
– Tarde demais, Bloomfeld. Vou tentar tirar você desta espelunca, mas vou logo adiantando...
– Desembucha.
– Você vai ter de assinar aquela petição...
– Vai se catar, Zanabria! Eu não contratei você pra me trair.
– Não tem outro jeito, Bloomfeld!
– Eu me recuso a ser um imbecil com papel assinado!
– Então eu acho que vai ser muito difícil...
– Foda-se! Me deixe apodrecer aqui!
–É o que vai acontecer... Infelizmente é o que vai acontecer...
– Você é um advogado tão brilhante...
– Mas não sou Santo Expedito! Você deveria pensar é na Cláudia... E nas crianças.
– Mas eu penso, porra! É isso que me deixa louco!
– Bloomfeld, você tem que fazer uma reflexão profunda... Um profundo exame de consciência calcado na realidade visível...
– Mas é esta qu’eu execro, Zanabria!
– Porra, Bloomfeld! Você não é nenhum fantasma, nem vive num universo paralelo...
– Eu queria alguém que defendesse a minha causa, só isso...
– Nem Jesus Cristo, Bloomfeld... Se ele voltasse hoje, os próprios cristãos o crucificariam de novo.
– Mas assim você não está me dando nenhuma saída...
– Estou sim...
– Desde que eu assine a petição...
– É a única que você tem, Bloomfeld.
– Até você, Zanabria!...
– Lamento, Bloomfeld... Todos temos que sobreviver.
– Acho que não preciso dizer-lhe o que você deve fazer com esta petição...
– Estou indo, Bloomfeld. Deste jeito você está dizendo adeus a última chance que possuía... Sua dignidade não vale um centavo sem este papel... Eu sinto muito por Cláudia e as crianças...
– Pra onde nós vamos todos teremos uma segunda chance... E uma terceira e uma quarta e um milhão de chances, pois a roda da fortuna não pára. E mesmo que levemos um bilhão de anos pra compreender, ainda teremos um trilhão de chances. É assim o universo, sabia, Zanabria?
– Não, não sei de nada disso, e nem acredito... Eu só acredito na Lei...
– A Lei em que toda a sua geração acredita, e todas as outras que nos precederam, muda a cada cem anos. Ela, sim, não tem substância alguma... Ou melhor, tem, mas é como um perfume francês, dura muito tempo, mas um dia desaparecem seus efeitos.
– Assine a petição, Bloomfeld, e você ainda terá o direito de dizer coisas assim, e pessoas que o escutem.
– Eu não vou assinar a minha própria sentença de morte.
– E o que que tem? Pra morrer é que vivemos... Olhe pra você, Bloomfeld. Você é um morto-vivo e quer preservar a pele!
– Sonho em estar dormindo, quando eu flutuo sem amarras, sem senões, sem hoje nem amanhã, sem leis, sem gravidade, sem calor nem frio, e sem nenhum pudor... Pesadelo é estar acordado.
– Isso tudo é muito bonito, mas Shakespeare é signatário deste documento, e assim como ele Drummond de Andrade e Manoel Bandeira, e o Fernando Pessoa também...
– Não, Zanabria. Aí você se enganou. Pessoa não assinou a petição...
– Por isso comeu o pão que o diabo amassou, como o Kafka...
– Tantos grandes homens antes de mim, e a ignorância só muda de ferramentas...
– Lamento, Bloomfeld, mas tenho de ir...
– Dê lembranças minhas a Cláudia...
– Eu darei...
– E Zanabria, por favor, beije minhas crianças como se fosse eu, e diga-lhes que eu... Eu as amo do fundo do meu coração, e peço perdão pelas minhas imperfeições, pela falta de sabedoria com que muitas vezes eu lidei com elas... Quer saber de uma coisa? Não diga nada!... Isso não vai adiantar agora. Eu pensei que você pudesse fazer alguma coisa por mim, Zanabria, mas vejo que não...
– A ciência do Direito, Bloomfeld, não pode lidar com o paradoxo humano... Os Juízes de Direito, da mesma forma, são incapazes sequer de arranhar de leve o substrato infinitesimal sutil que se esconde por trás das Leis do Universo... Não peça demais a esses homens moldados em forma de barro... Mais dia menos dia, eles verão essas formas se espatifarem e não poderão fazer absolutamente nada.
– É mesmo... Eu vou procurar entender isso... Eu não amo os Juízes de Direito, confesso, muito menos os mecanismos que forjam essas figuras consideradas indispensáveis a uma sociedade bem equilibrada, bem como os professores, os médicos ou delegados, e os advogados, etc., etc., mas sei que todos eles desenvolvem a mesma busca que eu, mesmo sem o saberem. Tenho de tentar entender o drama de todas essas pessoas, e quiçá amá-las, assim como eu amo os pássaros que cantam na minha janela, ou as borboletas que alegram o jardim... Mas eu tentarei ser compreensivo, benevolente e todas essas palavras com que os iluminados dizem que nós nos aproximamos de Deus... E por falar Nele... Vai com Deus, Zanabria. É a única coisa sensata que eu poderia dizer neste momento.
– Você também... Fique com Ele, embora eu não acredite em Deus algum, mas sei que muitos se consolam com esta idéia, e, lembre-se: eu fiz tudo que estava ao meu alcance para livrá-lo desta situação.
– Eu sei.
– Passe bem, Bloomfeld...
Aquele homem que dominava muitas línguas, que sabia todas as letras, todas as artimanhas da gramática, e de como escapar da justiça, deixou a delegacia sem um único rumor. Lépido e ardiloso, como a letra da Lei.
O Delegado entrou atabalhoadamente, tropeçando nos cabos que se cruzavam no chão por todos os lados, à maneira de raízes, enfurecido, maldizendo o “filho da puta que transformou esta delegacia num circo!”
– Se eu pegar o infeliz eu fuzilo ele!
Ele berrou uma série de impropérios desqualificados impublicáveis descartáveis neste momento por pura questão estética digamos assim. Nenhum dos ofendidos houve por bem responder, até porque não foram encontrados. Ainda bem, porque, se o fizessem, atrairiam todo o rancor e ódio de um pretenso servidor da lei.
Esta era outra coisa, Haroldo Bloomfeld bem o sabia, apenas afeita aos alfarrábios civis, e não para ser considerada na prática, uma vez que a Lei, com letra maiúscula, era uma gazeteira de primeira em terras tupiniquins.
– O que está acontecendo aqui, Bloomfeld?
– Eu virei notícia, delegado...
– Você o quê?!
– Parece que a imprensa acredita que o meu caso pode gerar uma mudança histórica neste país...
– É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que o Brasil mudar, Bloomfeld.
– O senhor tem um camelo aí?
– Quem permitiu que eles entrassem?
– Isso vai ser difícil o senhor descobrir...
– Porquê?
– O senhor não sabe que a imprensa faz parte do jogo?
– Que jogo, Bloomfeld? Seja explícito!
– Todo mundo acha que a imprensa cumpre um papel cidadão...
– E você, o que você acha?
– Eu não acho, tenho certeza que tudo não passa de encenação.
– Mas como eles entraram aqui?! – expressei-me com um gesto vago, não sabia, foi o que dei a entender. O Delegado não gostou. – Quem foi o filho de uma cadela que permitiu?
– Eles entram em qualquer lugar, Delegado! Até nos porões do Vaticano, quando isto interessa ao jogo...
– Mas você falou à vontade, não falou?
– Pois é... Eu me pergunto qual é a estratégia desta vez.
– O que você falou a eles, Bloomfeld?
– Falei aquilo que tinha de falar... O que me está engasgado, mas não parece que tenha solução...
– O que você espera conseguir com isto?
– A minha liberdade.
– Esta depende da Justiça...
– Então o meu caso é quase perdido, não é mesmo Delegado?
– Isto vai depender de uma série de fatores, Bloomfeld. Você já ligou pro seu advogado?
– Como, se eu não posso nem fazer cocô em paz?
– As coisas vão mudar, Bloomfeld... Daqui pra frente as coisa vão melhorar... Pode ter certeza disto...
– Eu duvido muito...
– O Brasil está vivendo uma fase histórica de prosperidade e desenvolvimento. Nunca tantos comeram tão bem na sua vida...
– Tão poucos com tanto; tantos com quase nada...
– A economia brasileira, hoje, é uma das mais sólidas do globo...
– No entanto, as favelas só fazem aumentar, e viram cartões postais...
– Nossa produção agrícola cresce a cada ano. O Brasil pode se transformar no Celeiro do Mundo!...
– Todavia, a distribuição de terras continua sendo uma das mais injustas do planeta...
– Pegue o telefone, Bloomfeld...
– Porquê?
– Faça a sua aposta...
– O mundo blefa, Delegado...
– Bloomfeld, meu irmão...
E o delegado proferiu a frase como um pastor evangélico monomaníaco, aparentando grande calor humano, mas no fundo, no fundo, um papagaio recitador de versículos.
– Se você soubesse o qu’eu sei...
Ele tentou continuar, à maneira de um doce vigário católico de olhos vulpinos, mas eu não dei atenção...
Pensava na minha Cláudia, a cuidar dos pequenos sozinha, sem um amanhã definido, definível... Que educação ela poderia dar-lhes? Num mundo tão conturbado filosoficamente, cujas utopias deixaram de exercer seu papel mais importante, que é justamente o de guardar alguma esperança no coração humano...
Onde estão essas utopias?
Pobre mundo...
Elas desapareceram, cooptadas pelo Mercado de Ações.
Eu ouvia o Delegado matraquear sua litania insalubre, mas ela semelhava ao coaxar sem sentido de algumas rãs primaveris, cuja real estação passava por um up grade cósmico.
– Ligue pro seu advogado, Bloomfeld...
O Delegado insistiu.
– Qualquer coisa é melhor do que um farrapo humano, que perdeu o respeito junto a seus pares...
– Neste ponto eu diria, Delegado, que aí ele galgou sua verdadeira posição... Subiu na escala das hierarquias celestiais...
– Como pode um pobre mendigo ousar querer ser como um anjo?
– Talvez ele só seja um farrapo na aparência...
– Não recomece com suas tolices, Bloomfeld. Seu erro maior foi desrespeitar um juiz, depois foi negar sua mão estendida...
– Para um homem que despertou para a realidade tal como ela é, esta mão só o pode conduzir ao cadafalso.
– Ligue pro seu advogado, Bloomfeld, embora eu, particularmente, acredite, pela minha experiência nestes casos, que o seu está perdido. Faça a ligação assim mesmo.
– Eu não sei se minha esposa teve tempo de ligar pra ele...
– Então ligue pra ela...
Dois dias depois o filisteu apareceu na delegacia...
Doutor Zanabria era um homem um pouco mais velho que eu. Estudara direito nas melhores universidades do mundo, vestia-se impecavelmente bem, falava ainda melhor, e convencia a maioria com quem lidava, com aquele seu sorriso cúmplice com covinhas à direita e à esquerda de uma boca verdadeiramente esgarçada. Possuía alguns cabelos grisalhos, porém cheios, e sem a vaidade de pintá-los. Possuía também uma vista quase intacta, e, curiosamente, um olho verde e o outro azul. Eu costumava brincar com Zanabria nos bons tempos, dizendo-lhe que aquele olho verde lhe fora dado para que ele enxergasse melhor as “verdinhas”, e o azul significava o mar puro do Nordeste, aonde ele iria depois de amealhar um bom número das “verdinhas”. Afora isso, ele não apresentava assim outras características que o destacassem na multidão, a não ser aquela cara eternamente lisa, pronta a escorregar nas situações as mais difíceis.
– Bom dia, Bloomfeld – encetou ele com um sorriso como se tivesse ganho um bilhete premiado. – Cláudia me ligou... – de fato eu não sabia se ela havia lhe adiantado alguma coisa, fruto das nossas economias de toda uma vida de lutas, muito provavelmente agora prestes a ser dilapidada pelo mui caríssimo amigo doutor Zanabria. – Peço-lhe mil desculpas, mas eu só pude vir hoje...
– Não tem problema, desde que você me tire daqui...
– Esta parte vai exigir realmente toda a minha sapiência neste negócio... – volveu ele, eu diria quase cínico. – Não vai ser nada fácil, porém... – continuou reticente. – Nós vamos conseguir... Estava envolvido num caso... Como vou lhe dizer? Um beco sem saída... A história é a seguinte... Um homem muito bem relacionado... – Zanabria fez gesto indicando muita grana. – Matou sua esposa... Uma beleza de mulher!... Daquelas que um bom filho da puta faria qualquer coisa para manter... Mas este meu cliente, mesmo assim, não conseguiu... Um corno!... Literalmente... E, pasme, Bloomfeld, esta maravilhosa mulher... – Zanabria abriu sua pasta, retirando uma fotografia dela e passou a mim. Realmente... Uma loura... Que beleza! – Este avião aí, acredite ou não, estava traindo o meu cliente... – novo gesto indicando dinheiro – Adivinhe... Com um passista de escola de samba... Um negão magrelo... Muito bom dançarino, diga-se de passagem, dito por ela... Mas um caniço, Bloomfeld... Bons dentes e tudo, só tu vendo... Parece feito de espaguete... Esse neguinho mora na Mangueira, Bloomfeld... E ela deu um carro zero pra ele... Este meu cliente, corno assumido, homem muito bem relacionado, não se sabe como, muito provavelmente alguém entregou sua mulher em troca de uma boa soma, descobriu tudo... Ele botou um detetive particular na cola dela, Bloomfeld...
– Já sei onde esta história vai acabar...
– Calma!... Um belo dia, o tal do detetive ligou pro meu cliente... O homem estava no meio de uma reunião importantíssima!... Negócios com o exterior e o caralho!... Pois ele largou a reunião... Foda-se! – Zanabria começou a rir, aparentemente sem nenhum motivo, entusiasmado com sua narrativa. – O detetive bateu pra ele todo o serviço... A mulher dele estava num motel de luxo na Zona Sul com o tal neguinho passista da Mangueira... Meu cliente... Não posso dizer o nome, pô!... Pagou uma propina alta e invadiu o quarto onde os dois estavam transando... Descarregou o pente da arma nos dois... Morreram na hora... Os dois... O julgamento acabou ontem à tarde... Ele foi absolvido...
– Sob qual alegação?
– Legítima defesa da honra...
– Ah, não!...
– Tô te dizendo, rapaz...
– Zanabria, você é um herói!
– Apenas competente, Bloomfeld...
– Trinta anos depois de Doca Street...
– Eu usei argumentos mais convincentes...
– Tipo?
– “A família brasileira está ameaçada!”... Não podemos aceitar este tipo de desvio moral!”... Eles têm três filhos, Bloomfeld... Pô!
Zanabria interpretava como se estivesse pregando à multidão.
– Que panacéia!
– Colou, não colou?
– Zanabria, sinceramente... Eu não sei onde nós vamos parar.
– O Céu é o limite, meu caro Bloomfeld.
– Talvez seja melhor nós designarmos por Inferno...
– Nós temos que pensar grande, meu rapaz...
– Meu pai já me dizia isso...
– Você aproveitou?
– Algumas coisas. Com o tempo eu vi que muita coisa estava errada, mas assim são os conflitos de gerações. Muitas coisas que nossos avôs viam como erradas, no tempo dos nossos pais revelaram-se futilidades, e assim nós chegamos aqui...
– Eu diria que você chegou ao fundo do poço, Bloomfeld...
– Cheguei à pior das conclusões, Zanabria, só isso...
– A verdade, Bloomfeld, é que muitos de nós percebemos que a vida se tornou impossível sob a face da Terra, mas nós não podemos admitir isso assim... em público.
– E ai daqueles que resolvem ficar nus em plena praça pública...
– Esses tem de ser internados como loucos... Incomunicáveis!
– Mas porquê?
– Autopreservação.
– Nós estamos implodindo!
– Eu sei disso. Você sabe. Os cientistas concordam. Entretanto urge que continuemos a embalar a multidão...
– Ela tem que acordar...
– Não se preocupe, Bloomfeld, há leitos para todos. O Maracanã, a Marques de Sapucaí...
– Há homens como nós, Zanabria...
– Que homens o quê! Espectros é o que somos...
– Reaja, homem!
– Tarde demais, Bloomfeld. Vou tentar tirar você desta espelunca, mas vou logo adiantando...
– Desembucha.
– Você vai ter de assinar aquela petição...
– Vai se catar, Zanabria! Eu não contratei você pra me trair.
– Não tem outro jeito, Bloomfeld!
– Eu me recuso a ser um imbecil com papel assinado!
– Então eu acho que vai ser muito difícil...
– Foda-se! Me deixe apodrecer aqui!
–É o que vai acontecer... Infelizmente é o que vai acontecer...
– Você é um advogado tão brilhante...
– Mas não sou Santo Expedito! Você deveria pensar é na Cláudia... E nas crianças.
– Mas eu penso, porra! É isso que me deixa louco!
– Bloomfeld, você tem que fazer uma reflexão profunda... Um profundo exame de consciência calcado na realidade visível...
– Mas é esta qu’eu execro, Zanabria!
– Porra, Bloomfeld! Você não é nenhum fantasma, nem vive num universo paralelo...
– Eu queria alguém que defendesse a minha causa, só isso...
– Nem Jesus Cristo, Bloomfeld... Se ele voltasse hoje, os próprios cristãos o crucificariam de novo.
– Mas assim você não está me dando nenhuma saída...
– Estou sim...
– Desde que eu assine a petição...
– É a única que você tem, Bloomfeld.
– Até você, Zanabria!...
– Lamento, Bloomfeld... Todos temos que sobreviver.
– Acho que não preciso dizer-lhe o que você deve fazer com esta petição...
– Estou indo, Bloomfeld. Deste jeito você está dizendo adeus a última chance que possuía... Sua dignidade não vale um centavo sem este papel... Eu sinto muito por Cláudia e as crianças...
– Pra onde nós vamos todos teremos uma segunda chance... E uma terceira e uma quarta e um milhão de chances, pois a roda da fortuna não pára. E mesmo que levemos um bilhão de anos pra compreender, ainda teremos um trilhão de chances. É assim o universo, sabia, Zanabria?
– Não, não sei de nada disso, e nem acredito... Eu só acredito na Lei...
– A Lei em que toda a sua geração acredita, e todas as outras que nos precederam, muda a cada cem anos. Ela, sim, não tem substância alguma... Ou melhor, tem, mas é como um perfume francês, dura muito tempo, mas um dia desaparecem seus efeitos.
– Assine a petição, Bloomfeld, e você ainda terá o direito de dizer coisas assim, e pessoas que o escutem.
– Eu não vou assinar a minha própria sentença de morte.
– E o que que tem? Pra morrer é que vivemos... Olhe pra você, Bloomfeld. Você é um morto-vivo e quer preservar a pele!
– Sonho em estar dormindo, quando eu flutuo sem amarras, sem senões, sem hoje nem amanhã, sem leis, sem gravidade, sem calor nem frio, e sem nenhum pudor... Pesadelo é estar acordado.
– Isso tudo é muito bonito, mas Shakespeare é signatário deste documento, e assim como ele Drummond de Andrade e Manoel Bandeira, e o Fernando Pessoa também...
– Não, Zanabria. Aí você se enganou. Pessoa não assinou a petição...
– Por isso comeu o pão que o diabo amassou, como o Kafka...
– Tantos grandes homens antes de mim, e a ignorância só muda de ferramentas...
– Lamento, Bloomfeld, mas tenho de ir...
– Dê lembranças minhas a Cláudia...
– Eu darei...
– E Zanabria, por favor, beije minhas crianças como se fosse eu, e diga-lhes que eu... Eu as amo do fundo do meu coração, e peço perdão pelas minhas imperfeições, pela falta de sabedoria com que muitas vezes eu lidei com elas... Quer saber de uma coisa? Não diga nada!... Isso não vai adiantar agora. Eu pensei que você pudesse fazer alguma coisa por mim, Zanabria, mas vejo que não...
– A ciência do Direito, Bloomfeld, não pode lidar com o paradoxo humano... Os Juízes de Direito, da mesma forma, são incapazes sequer de arranhar de leve o substrato infinitesimal sutil que se esconde por trás das Leis do Universo... Não peça demais a esses homens moldados em forma de barro... Mais dia menos dia, eles verão essas formas se espatifarem e não poderão fazer absolutamente nada.
– É mesmo... Eu vou procurar entender isso... Eu não amo os Juízes de Direito, confesso, muito menos os mecanismos que forjam essas figuras consideradas indispensáveis a uma sociedade bem equilibrada, bem como os professores, os médicos ou delegados, e os advogados, etc., etc., mas sei que todos eles desenvolvem a mesma busca que eu, mesmo sem o saberem. Tenho de tentar entender o drama de todas essas pessoas, e quiçá amá-las, assim como eu amo os pássaros que cantam na minha janela, ou as borboletas que alegram o jardim... Mas eu tentarei ser compreensivo, benevolente e todas essas palavras com que os iluminados dizem que nós nos aproximamos de Deus... E por falar Nele... Vai com Deus, Zanabria. É a única coisa sensata que eu poderia dizer neste momento.
– Você também... Fique com Ele, embora eu não acredite em Deus algum, mas sei que muitos se consolam com esta idéia, e, lembre-se: eu fiz tudo que estava ao meu alcance para livrá-lo desta situação.
– Eu sei.
– Passe bem, Bloomfeld...
Aquele homem que dominava muitas línguas, que sabia todas as letras, todas as artimanhas da gramática, e de como escapar da justiça, deixou a delegacia sem um único rumor. Lépido e ardiloso, como a letra da Lei.
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