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O DESPERTAR DE HAROLDO BLOOMFELD - CONTINUAÇÃO

XI

Outro dia a mais significava um dia a menos, embora a passagem que limitava a minha estada de certo modo não demonstrava outra coisa que não fosse ainda a mórbida esperança encapuzada...
Mas o que importava era isso...
Este caso permanecia como o inconstante inverno dos meus sonhos de menino...
Primavera?
Verão?
Outono?
Inverno?
Sem a neve do Papai Noel do Norte, indecifrável nas suas razões de Império.
Uma propensão cadavérica à decapitação pura e simples, mais pura do que simples, porquanto uma eliminação sumária era coisa de somenos importância, ainda que palpável. O difícil seria convencer a sociedade da legalidade de dita ação...
A sociedade não passa de uma matrona prostituta com um ventre enorme que adora se empanturrar de novidades, e ela acaba cedendo às vontades dos rufiões atrapalhados, os tiranos daquelas estações transitórias...
Mais inconstante que uma ninfeta cheia de vontades pueris!
Quando isto vai ter um fim?
Daqui a mil anos talvez...
Eu olhava a parede descascada da saleta que me servia de gabinete privativo...
O pior é que eu enxergava alguns padrões naquela relação casual...
Manchas esmaecidas; o tom descolorado da parede, em alguns pontos, parecia mesmo propositadamente arranjado...
Nada mais insano de pensar!
A que ponto eu cheguei...
Não contava carneirinhos...
Mas que eles existem, existem...
Nem o brilho das luzes distantes, nem o número dos carros que passavam, ou as marcas dos mesmos, nada! Mas as manchas descascadas da parede mal conservada da coisa pública...
Aquela era a minha primavera...
Destituída das flores.
Os dias se passavam como os pingos da chuva...
Inumeráveis.
Já não mais importava as segundas, terças ou domingos...
Os feriados eram diários...
Não mais as horas vazias de um inútil dia vulgar; o almoço ou a janta horrível, mas a agonia do dia pós dia insalubre, estéril ao extremo.
Uma mosca que passasse voando tornava-se uma celebridade... Imediatamente! Um ruído qualquer, desconexo que fosse, um acontecimento!
A solidão é abençoada!
Ainda trocava uma palavra ou duas com algum dos agentes que vinham me ver, pura rotina, somente a fim de verificar se eu não tinha morrido. Tinha um banheiro só para mim. Imundo, mas era meu. O delegado, eu quase não o via. Os telefonemas eram cada vez mais raros; o meu celular fora confiscado. Todavia, um dia que eu não sabia se noite ou dia, o Delegado veio me avisar daqueles homens da CPI...
– Uma Comissão Paramentar de Inquérito – proferiu o Delegado, enchendo a boca para pronunciar cada letra.
– Mas o que eles querem aqui? – inquiri.
– Seu nome ganhou fama internacional, Bloomfeld...
– Quem se importa com isso?
– Eu, porque assim todo mundo vai ficar de olho nesta delegacia...
– E você não pode tapar o sol com a peneira, não é, Delegado?
– Você deveria se importar com a fama, Bloomfeld... Esta talvez seja sua única chance. Você sabe, a uma celebridade as instituições pensam duas vezes antes de riscá-la do mapa...
– Bom, se eles vão me ajudar a sair daqui...
– Isto eu não sei ao certo, mas temos que estar preparados...
– Nós você disse?
– Claro. Nós. Se os parlamentares vieram para verificar o seu processo, o meu também está na reta...
– Eles irão constatar que está quase tudo errado com o processo...
– Silêncio, Bloomfeld! Uma CPI tem total autonomia para agir.
– Eu sei disso. Temos visto acontecimentos marcantes da nossa história recente...
– Como o Impeachment do ex-presidente Collor de Mello.
– Sim, e outros casos mais recentes...
– Você tem razão, Bloomfeld. São exemplos que dignificam nossas instituições políticas...
– Que terminaram em pizza!
– Silêncio, Bloomfeld! Não ouse denegrir a imagem madura que o Brasil construiu ao longo dos últimos 20 anos...
– Como a Maior Democracia da América do Sul...
– Os parlamentares já chegaram...
– E a mais equivocada de todas.
Um dos inumeráveis agentes de serviço, que não fazia porra nenhuma, aliás, e com a barba mal feita por sinal, projetou a cabeçorra enorme de tanto líquido para dentro da sala aromática, um cheiro podre, por certo...
– Eles estão aqui ao lado Delegado.
– Faça-os entrar... Bloomfeld, quero que você os receba com toda a cortesia...
– Cortesia é o meu nome. Toda a cortesia que cabe a um condenado ao degredo virtual...
– Deixe suas tolices de lado, por favor. Você vai se comportar...
– Onde está o Senhor Juiz de Direito pra me liquidar de vez?
– Ele está trabalhando em outros casos. Não pense que o seu, por ser o mais notório, é o único caso que merece atenção...
– Quem sou eu pra pensar isso, Delegado...
– Silêncio! Eles estão entrando... Por favor, Senhores... Entrem e fechem a porta. Empurrem a poeira para baixo do tapete, e, de preferência, deixem a imprensa fora disto. Ela é nossa aliada na maioria das vezes, mas também pode atrapalhar... Não se deixem ludibriar por este homem. Trata-se de um sofista da pior espécie. Temos de apreender os seus novos métodos para combater melhor os filhotes que vierem depois... Por favor... Ele é todo seu...
O delegado se despediu com um sorriso digno, deixando a sala só para nós. Talvez ela tivesse sido convenientemente “preparada”, assim como aqueles três homens e duas mulheres...
Uma senhora rechonchuda, acima dos cinqüenta anos, colares de pérolas legítimo e vestido de fino trato, calçando sandálias douradas de grife, salto fino e alto, cabelos louros pintados cheios, armados com muito esmero, um sorriso fácil, como só as gordas são capazes, porque topam tudo, definitivamente topam, ainda que severo sobre determinado ponto de vista não tão esclarecido a uma pessoa desatenta. Maquilagem forte! Forte sotaque nordestino; trejeitos despojados, de uma mãe com muitos filhos, incluindo os adotados, e uma conta bancária tão polpuda quanto o seu traseiro, ela pertencia a um partido conservador, a gorda sorridente, não sei se à direita ou à esquerda, mas o fato era que aquela sigla não significava absolutamente nada.
Sua companheira de CPI era bem mais jovem e bonita. Trajava-se de uma maneira assim... ALTERNATIVA. Alta, cabelos crespos bem volumosos, e magra, mas demonstrando uma personalidade firme, irredutível, ou quase. Eu tinha certeza que aquela mulher pertencia à chamada esquerda independente, embora o seu discurso diferisse muito pouco do da outra, mas ela falava com desenvoltura, e uma entonação de revolucionária...
Só no discurso.
Os três parlamentares que as acompanhavam estavam vestidos de terno e gravata, mas um deles, em particular, me chamou mais a atenção porque usava uma gravata amarela brilhante, cheia de bandeirinhas do Brasil, manquitolando da perna direita. Pertencia a um partido cristão qualquer.
Dos outros dois, um eu tinha certeza, estava na profissão errada, porquanto sua altura majestosa, olímpica, o talhe garboso, a maneira segura, porém comedida, estudada em cada gesto, cabelos grisalhos parciais muito bem cuidados, olhos claros atentos, faziam dele uma espécie de galã de Hollywood. Pertencera a inúmeros partidos; tantos, na verdade, que volta e meia ele se confundia com as siglas, que, sinceramente, para aquele homem, como para a maioria do povo brasileiro, não passava de uma sopa de letrinhas.
O terceiro era um tipo apático, sonambúlico, cafuzo, e em várias oportunidades eu o peguei cochilando. Mas então o que ele viera fazer aqui? Eu faria a mesma pergunta para os outros quatro.
– Nós viemos a esta delegacia, senhor Bloomfeld, porque o seu caso mereceu um enorme destaque na imprensa mundial – introduziu-se a gordinha.
– Engraçado – disse eu, com uma diferença estudada. – Não posso imaginar o motivo...
– Mas eu posso! – atalhou o cristão, claudicante.
Olhei para ele com espanto. Estavam todos sentados a minha volta, com cadeiras trazidas pelos agentes servis, e eu me sentia como um cordeirinho no meio de abutres famintos.
– Eu diria muito mais, senhor Bloomfeld – continuou o cristão, com gravata amarelinha com bandeirolas do Brasil, mexendo-se freneticamente na cadeira de rodinhas, iic, eec. – O seu caso demonstra toda a gama de uma sociedade de castas, onde alguns poucos cidadãos estão acima da lei, e isto, aos olhos de Nosso Senhor Jesus Cristo, é intolerável!...
O galã hollywoodiano, atiçado pelo colega edil, tomou a palavra:
– Como, exatamente, se deu o incidente?
– Estava num engarrafamento monstro!... – comecei. – Com ânsias de vômito!... – exagerei. – Pedindo licença a todos os postos, mas ninguém queria acreditar – acrescentei. – Acho que posso dizer, sem sombra de dúvida, que todo o engarrafamento é assim mesmo... – divaguei. – Encalacrado mesmo... Como diz o nome mesmo... Detido no interior de uma garrafa vazia, inexoravelmente, ao sabor das ondas, Cabo Horn adelante, ma non troppo, posto que, apesar de tudo, nada era pra valer... A garrafa não tinha mesmo nenhuma chance de chegar à praia. No entanto, ainda qu’eu percebesse a mais leve sombra de ironia nas minhas palavras, todos os seres humanos, escravizados por um exército de automóveis absolutamente impassíveis, detratores de uma realidade pseudossimbiótica, Alentejo e cercanias, acrescido de inúmeros trapezoidais fosforescentes, seres abissais vítimas de bocarras escancaradas, com luzinhas trick track e dentões fenomenais, a mais absoluta escuridão mastodôntica prevalecia para além dos vendedores de biscoitos e companhia, ainda que amolecidos devido à incidência maciça do sol matinal, à revelia da egrégora humana. Isto pode contar como um... Não... não sei a causa exata do fenômeno, mas sei que é assim... Mente capta valores frívolos, ilusórios, como quem manda é a mamãe do vizinho bobalhão. Ele nunca quis reagir a isso... Sempre atacou o problema de uma maneira pueril, inservível, inabsorvível, hórrida... in órrida. Am, nach, from. O quê? Buque... Mas o trânsito ia seguindo... Parado. Meu rádio não funcionava convenientemente... Acho que ali na região do... as interferências são fugidias obsedandetementeplangentementeinfrutiferamente sofrivelilha de contatos mortos é o qu’eu vi, Vivi, posso iii? Ai que droga! Mas eu conseguia captar o som do carro ao lado, uma vez que nós andávamos e parávamos, andávamos e parávamos, andávamos e parávamos, parávamos e parávamos, não andávamos e não andávamos, bufávamos e bufávamos, assim... o tempo todo... milhas e milhas away... Ei!... Andei... Passei o meu amigo do rádio... Nunca mais... um dia, talvez, quem pode prever? Nós nos encontremos num engarrafamento qualquer em direção ao Nunca... Mas isso eu não desejo nem ao meu melhor inimigo... As emoções são fortes demais para um espírito perturbado. Acho qu’eu já falei assim antes... Quer dizer... Enumerei as diversas fases porque passam os sempre irrecuperáveis vitimados do trânsito... Não é bem isso... Não?... Tem certeza?... Mas ele não tinha... Possuía algumas somas decerto. Não sei o quanto talvezuns. Tantos milhares nunca saberemos. Mas o Delegado talvez possa saber. É um seu dever dele. Meu. Seu. Nossos. Dossos. Um montão de ossos. Cremossos. Insóssos. Devossos. Bóssos. Tudo isso assim... De roldão. Seu Roldão perdeu as estribeiras na segunda rodada... Uma jogatina danada danada de sem vergonha. Jogou até que se recuperou um dia em mi Buenos Aires querida
Sinceramente...
Acho que foi assim...
Embora não tenha certeza de todo o modo...
De modos que...
Não. É.
Eu devo dizer. Mal amou. Mau amor. Humor. Terror. Essa dicotomia que nos afasta da verdadeira fonte que realiza a todo instante uma passagem agora... Ágora Grécia. Mas não tem. Falcatruas amém. A toda hora que pode suportar um intransigente transeunte melipassando por nós. Este pote de arco-íris belga que perpassa a nossa fronte desprotegida derramada afunda que nem que Vovó Neném que diz amém a todas as minhas caçoletas endividadas porque eu não sei mais o que estava falando pro maldito do vereador que me perguntou alguma COISA tal como...
– O Senhor tem certeza, senhor Bloomfeld senhor.
– O Senhor acredita que o seu caso tem uma solução parlamentar de inquérito senhor Bloomfeld Senhor Haroldo Bloom?
Sinceramente?...
Não sei porque estou escrevendo isso...
Sinceridade.
Acho que no final das contas não servirá pra nenhuma editora afinal, mas o espírito de Joyce baixou em mim o que vou fazer... Like a downloads... que se f...
Vamos embora...
Não vejo a hora...
De rever Aurora...
Na encruzilhada do meu destino.
Sabe quando você sente o potencial de mudar o mundo de alguma forma, mas ao mesmo tempo vê que tudo não passa de um delírio infantil?...
Não sei, talvez mudar a literatura ou acrescentar mais um tento no tino de alguém, sei lá!, uma porra qualquer tem que acontecer se não eu me estrepo de verde e amarelo mulher muda ou mudo eu ou vou embora porra t’sconjuro megalô três vezes!
Talvez eu não seja um Joyce...
Com certeza não...
Mas eu sou...
Haroldo Bloomfeld com muito orgulho...
Um homem que justamente acordou do seu sonho eterno...
Yes, we can...
Oh, Yes!...
We are the bananas!
Rotten bastard bananas!
E fiquei assim olhando pra cara do galã de Hollywood como a dizer:
– Yes, you S.O.B., M. F., ASAP!
Voltando…
Não havia mais clima pra continuar co’ essa porra como da última vez...
A gente planeja uma coisa...
Dificilmente ela acaba quando termina...
Igualzinho a vida.
Uma flecha dirigida ao futuro incógnito.
Este é o depoimento de um homem afogado num desespero atávico...
O fato d’eu estar aqui é motivo de alegria, e sabem porquê?
Assim eu exorcizo um demônio por dia.
Este é o motivo. A causa final por trás dos bastidores.
Não estou nem aí se essa porra vai ou não ser publicada.
Foda-se toda a torcida dos derrotados, incompetentes, e incapazes de criar algo interessante...
Que vivam homens como James Joyce, Samuel Beckett, Virginia Woolf, Clarice Lispector etc etc etc...
Amém a literatura que quer destroçar toda esta asneira que se faz hoje em dia...
Essas merdas bonitinhas mas ordinárias de magos picaretas!
Merlin queime todos eles!
Porque a verdadeira arte sobreviverá...
Mesmo depois da catástrofe final...
A beleza que suscita a arte está nas mentes dos iluminados quânticos...
E esses sobreviverão na eternidade enquanto houver mentes labutando neste universo feliz.
Passemos a outro capítulo...
Embora eu acredite que deva terminar aqui...
Não sei porque.

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