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Mostrando postagens de abril, 2010

O DESPERTAR DE HAROLDO BLOOMFELD(CONTINUAÇÃO)

VI No dia seguinte, bem cedo pela manhã, Cláudia, premida pelo desejo imorredouro de ver o seu marido dela, maltratado pela sorte, oriundo das camadas não as mais pobres dentre todas aquelas que disputavam o pão nosso de cada dia, compareceu à delegacia. Sem as crianças, é claro. O delegado permitira-me duas ligações, mas eu não me importara muito com esta caridade institucional. Liguei apenas para Cláudia a fim de explicar, por linhas sumárias, o que me tinha acontecido. Pior mesmo foi explicar ao chefe o incidente... No trabalho as coisas não iam nada bem para minha carcaça de tartaruga encéfala. Isto significava, provavelmente, demissão, sem muitos exórdios com fachada de magnanimidade, embora o meu chefe, pessoalmente, ao pé de um telefone inequívoco, garantisse que tudo estava bem, não é Xavier? Cláudia, toda chorosa, amarfanhada como capa de revista de fofocas depois de duas dúzias de clientes de um consultório médico a manipularem, fora introduzida na saleta onde eu impro...

O DESPERTAR DE HAROLDO BLOOMFELD(CONTINUAÇÃO)

V O delegado olhou pra mim... Eu analisava meus dedos, pobres dedos, que tanto labutaram para chegar onde cheguei... Fitei a cara do delegado... Agora sim... Ele tinha cara de urubu... Disse: “Merda!” tão logo me viu. E eu pensei: “Vai pra puta que te pariu!” Voltou a me encarar, o delegado... – Sabe de uma coisa, seu... (ele olhou o B.O.) Bloomfeld... O senhor está verdadeiramente enrascado... – Mas porque, doutor? – Este homem que o senhor bateu no carro dele... – Correção, delegado: ele me deu uma fechada inqualificável... – Que seja. O fato é que ele perdeu uma audiência imprescindível graças a este incidente e agora quer arrancar o seu couro... – Doutor, havia um trânsito miserável, com dois atropelamentos, tudo parado... – Eu sei disso tudo, seu Bloomfeld, mas o que o senhor quer que eu faça?... O homem é Juiz de Direito!... – E eu sou o cidadão que paga o altíssimo salário dele... Aliás, o seu também... – Pera lá, Bloomfeld! Não apela, vai... ...

O DESPERTAR DE HAROLDO BLOOMFELD(CONTINUAÇÃO)

IV O trânsito estava absolutamente parado. Não se ia a lugar algum; somente as pessoas andavam nas calçadas, apressadas, como num clipe em velocidade surreal... Sirenes, tiros, helicópteros, confusão, barulho, caos total. Triste Cidade Maravilhosa! Dois atropelamentos simultâneos, independentes entre si, mas quase no mesmo perímetro urbano, enrolaram o trânsito por mais de uma hora... A coisa ia esquentar no trabalho... Meu filme já estava queimando... Mas eu nunca mais ia chegar lá... Não sei porque, mas quando as coisas começam ruins dificilmente podem melhorar... Eu nunca fora tão pessimista quando nesta época... A coisa era muito simples, bastava abrir a janela e olhar para a rua. Aliás, nem precisava ir pra janela, só os ruídos que nos chegavam da rua já davam uma idéia a que ponto nós havíamos chegado. Que coisa estranha este mundo! Eu nunca havia pensado nisto antes, mas... Que gente louca! O trânsito foi liberado... Carros passavam por mim de...