VI
No dia seguinte, bem cedo pela manhã, Cláudia, premida pelo desejo imorredouro de ver o seu marido dela, maltratado pela sorte, oriundo das camadas não as mais pobres dentre todas aquelas que disputavam o pão nosso de cada dia, compareceu à delegacia. Sem as crianças, é claro. O delegado permitira-me duas ligações, mas eu não me importara muito com esta caridade institucional. Liguei apenas para Cláudia a fim de explicar, por linhas sumárias, o que me tinha acontecido. Pior mesmo foi explicar ao chefe o incidente...
No trabalho as coisas não iam nada bem para minha carcaça de tartaruga encéfala. Isto significava, provavelmente, demissão, sem muitos exórdios com fachada de magnanimidade, embora o meu chefe, pessoalmente, ao pé de um telefone inequívoco, garantisse que tudo estava bem, não é Xavier?
Cláudia, toda chorosa, amarfanhada como capa de revista de fofocas depois de duas dúzias de clientes de um consultório médico a manipularem, fora introduzida na saleta onde eu improvisara a minha cama de dormir. Felizmente não fiquei nas celas destinadas aos presos comuns. Cláudia, naturalmente, não ia gostar nada disso, embora ela estivesse meio aérea, como se não compreendesse a natureza daquele fenômeno...
Como explicar àquela mulher lindíssima se eu mesmo não o compreendia na íntegra?
Ela me falava de amor, muito amor, e de como se afligia por mim. Então eu tive que lhe explicar que em qualquer lugar que nós fôssemos, neste e em outros mundos, nosso amor jamais seria abalado, mesmo em francês, inglês ou alemão ou tcheco, chinês idem, apesar de que, em todos esses lugares, absurdos como estes dificilmente aconteceriam, mas nada poderia alterar a natureza daquela sensação transcendental de atração mútua que chamamos comumente de amor...
Então eu me abalei com o tempo, isto é...
O tempo que nunca existiu...
O tempo que o mundo esqueceu...
Tudo parecia tão toscamente belo apesar de tudo; tão absurdamente engendrado, planejado e divulgado...
Porque nós não víamos nas entrelinhas da História? Nunca. Porque nossos olhos não são treinados para esta coisa oculta...
Que, no entanto, faz parte de nossas vidas como trocar de roupa numa manhã ensolarada como esta que vivenciávamos, e muito mais...
Mas este muito mais nós não víamos agora...
Eu só percebi quando enxerguei Cláudia vestida de noiva, a igreja repleta, o órgão tocando Beethoven, para o deleite de seu pai, russo atroz, mas que preferia Beethoven a Tchaikovsky...
Senhora Cláudia Bivov...
Aceita Haroldo Bloomfeld como seu legítimo esposo?...
E ela aceitou...
E vivíamos felizes até agora...
Apesar da loucura do mundo.
Ainda assim Cláudia não compreendia como eu podia estar preso...
Nem eu tampouco.
Apesar de que eu, Haroldo Bloomfeld, não o ente egocêntrico, mas o ser universal transcendente, intuía que aquilo não passava de uma peça...
O mundo das ilusões perdidas na lembrança preparava uma armadilha circunstancial, mas igualmente transcendente, para atacar de morte o ego combalido, o que não podia acontecer se eu não aceitasse aquelas regras ilusórias, ou seja, seria bom que este ego fosse destroçado de todo, mas eu, Haroldo Bloomfeld, pelo menos a parte que cabia neste universo dos aflitos e necessitados, imperecível, este jamais seria atingido...
Como explicar tudo isso a minha segunda metade, que prazou aos Céus eu ter readquirido?
Claudinha chorava como Taís...
Como um Allanzinho que não queria ir à escola, ela também não possuía as ferramentas necessárias para compreender a complexidade daquilo que nos cerca...
Nem eu de fato.
Por isso eu a vi barriguda, quando Taisinha ainda recebia os últimos retoques daquela natureza que representaria muito mais que uma simples transfusão genética de mim ou de Cláudia.
Fora uma gravidez deveras complicada...
Todo mundo se metia na nossa vida, mas quem passava mal era ela!
Aquele tempo foi de especial provação para a construção do meu ser...
Tive que aturar minha sogra contra todos os princípios éticos...
E quando Allan nasceu então? Tudo aconteceu em dobro...
Era o segundo filho. Ninguém havia aprendido nada com a experiência anterior. Os conflitos se acirraram!
Aí as crianças entraram para a escola. A primeira vez de Taís. A primeira de Allan. E os meus pais não aproveitaram nada disso pois morreram meses depois do meu casamento...
Num acidente na estrada Rio-Juiz de Fora.
E os anos se aceleraram como um tufão furioso, até que voltei a olhar para o triste presente...
Pobre humanidade suicida!
Aqueles olhinhos castanhos vivos de minha esposa, cheios de lágrimas de uma dor confusa, abalaram-me ainda mais...
O delegado foi obrigado a nos interromper...
Normas internas da delegacia.
Cláudia foi embora logo depois, deixando sua alma comigo...
No dia seguinte, bem cedo pela manhã, Cláudia, premida pelo desejo imorredouro de ver o seu marido dela, maltratado pela sorte, oriundo das camadas não as mais pobres dentre todas aquelas que disputavam o pão nosso de cada dia, compareceu à delegacia. Sem as crianças, é claro. O delegado permitira-me duas ligações, mas eu não me importara muito com esta caridade institucional. Liguei apenas para Cláudia a fim de explicar, por linhas sumárias, o que me tinha acontecido. Pior mesmo foi explicar ao chefe o incidente...
No trabalho as coisas não iam nada bem para minha carcaça de tartaruga encéfala. Isto significava, provavelmente, demissão, sem muitos exórdios com fachada de magnanimidade, embora o meu chefe, pessoalmente, ao pé de um telefone inequívoco, garantisse que tudo estava bem, não é Xavier?
Cláudia, toda chorosa, amarfanhada como capa de revista de fofocas depois de duas dúzias de clientes de um consultório médico a manipularem, fora introduzida na saleta onde eu improvisara a minha cama de dormir. Felizmente não fiquei nas celas destinadas aos presos comuns. Cláudia, naturalmente, não ia gostar nada disso, embora ela estivesse meio aérea, como se não compreendesse a natureza daquele fenômeno...
Como explicar àquela mulher lindíssima se eu mesmo não o compreendia na íntegra?
Ela me falava de amor, muito amor, e de como se afligia por mim. Então eu tive que lhe explicar que em qualquer lugar que nós fôssemos, neste e em outros mundos, nosso amor jamais seria abalado, mesmo em francês, inglês ou alemão ou tcheco, chinês idem, apesar de que, em todos esses lugares, absurdos como estes dificilmente aconteceriam, mas nada poderia alterar a natureza daquela sensação transcendental de atração mútua que chamamos comumente de amor...
Então eu me abalei com o tempo, isto é...
O tempo que nunca existiu...
O tempo que o mundo esqueceu...
Tudo parecia tão toscamente belo apesar de tudo; tão absurdamente engendrado, planejado e divulgado...
Porque nós não víamos nas entrelinhas da História? Nunca. Porque nossos olhos não são treinados para esta coisa oculta...
Que, no entanto, faz parte de nossas vidas como trocar de roupa numa manhã ensolarada como esta que vivenciávamos, e muito mais...
Mas este muito mais nós não víamos agora...
Eu só percebi quando enxerguei Cláudia vestida de noiva, a igreja repleta, o órgão tocando Beethoven, para o deleite de seu pai, russo atroz, mas que preferia Beethoven a Tchaikovsky...
Senhora Cláudia Bivov...
Aceita Haroldo Bloomfeld como seu legítimo esposo?...
E ela aceitou...
E vivíamos felizes até agora...
Apesar da loucura do mundo.
Ainda assim Cláudia não compreendia como eu podia estar preso...
Nem eu tampouco.
Apesar de que eu, Haroldo Bloomfeld, não o ente egocêntrico, mas o ser universal transcendente, intuía que aquilo não passava de uma peça...
O mundo das ilusões perdidas na lembrança preparava uma armadilha circunstancial, mas igualmente transcendente, para atacar de morte o ego combalido, o que não podia acontecer se eu não aceitasse aquelas regras ilusórias, ou seja, seria bom que este ego fosse destroçado de todo, mas eu, Haroldo Bloomfeld, pelo menos a parte que cabia neste universo dos aflitos e necessitados, imperecível, este jamais seria atingido...
Como explicar tudo isso a minha segunda metade, que prazou aos Céus eu ter readquirido?
Claudinha chorava como Taís...
Como um Allanzinho que não queria ir à escola, ela também não possuía as ferramentas necessárias para compreender a complexidade daquilo que nos cerca...
Nem eu de fato.
Por isso eu a vi barriguda, quando Taisinha ainda recebia os últimos retoques daquela natureza que representaria muito mais que uma simples transfusão genética de mim ou de Cláudia.
Fora uma gravidez deveras complicada...
Todo mundo se metia na nossa vida, mas quem passava mal era ela!
Aquele tempo foi de especial provação para a construção do meu ser...
Tive que aturar minha sogra contra todos os princípios éticos...
E quando Allan nasceu então? Tudo aconteceu em dobro...
Era o segundo filho. Ninguém havia aprendido nada com a experiência anterior. Os conflitos se acirraram!
Aí as crianças entraram para a escola. A primeira vez de Taís. A primeira de Allan. E os meus pais não aproveitaram nada disso pois morreram meses depois do meu casamento...
Num acidente na estrada Rio-Juiz de Fora.
E os anos se aceleraram como um tufão furioso, até que voltei a olhar para o triste presente...
Pobre humanidade suicida!
Aqueles olhinhos castanhos vivos de minha esposa, cheios de lágrimas de uma dor confusa, abalaram-me ainda mais...
O delegado foi obrigado a nos interromper...
Normas internas da delegacia.
Cláudia foi embora logo depois, deixando sua alma comigo...
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