V
O delegado olhou pra mim...
Eu analisava meus dedos, pobres dedos, que tanto labutaram para chegar onde cheguei...
Fitei a cara do delegado...
Agora sim...
Ele tinha cara de urubu...
Disse: “Merda!” tão logo me viu.
E eu pensei: “Vai pra puta que te pariu!”
Voltou a me encarar, o delegado...
– Sabe de uma coisa, seu... (ele olhou o B.O.) Bloomfeld... O senhor está verdadeiramente enrascado...
– Mas porque, doutor?
– Este homem que o senhor bateu no carro dele...
– Correção, delegado: ele me deu uma fechada inqualificável...
– Que seja. O fato é que ele perdeu uma audiência imprescindível graças a este incidente e agora quer arrancar o seu couro...
– Doutor, havia um trânsito miserável, com dois atropelamentos, tudo parado...
– Eu sei disso tudo, seu Bloomfeld, mas o que o senhor quer que eu faça?... O homem é Juiz de Direito!...
– E eu sou o cidadão que paga o altíssimo salário dele... Aliás, o seu também...
– Pera lá, Bloomfeld! Não apela, vai...
– Mas é a pura verdade, delegado.
– Vou dizer ao senhor o que é a verdade... Esse Juiz de Direito está furioso consigo, e se eu não enquadrar o senhor, eu é que serei devidamente fritado, entendeu?
– Entendi. Mas acontece que a culpa foi dele. Ele me deu uma fechada...
– Esta história eu já conheço, Bloomfeld, mas não vai ser contada...
– Como assim?
– O homem quer o seu escalpo.
– Então tá, delegado. Ele que pague o seu prejuízo; eu pago o meu.
– Não é assim que a banda toca, Bloomfeld...
– E como é que a banda toca, delegado?
– O senhor vai ter que reconhecer a sua culpa...
– Isto é um absurdo!
– Também acho, mas é assim.
– Mas isso tem que mudar!
– Bom. Não tem outro jeito. O senhor vai ter que assinar esta petição aqui...
– Que petição?
– Reconhecendo que “por uma manobra imprudente de sua parte, um acidente de conseqüências facilmente evitáveis ocasionou um prejuízo institucional irreparável. Eu, Haroldo Bloomfeld, me responsabilizo inteiramente por todos os prejuízos, materiais e institucionais, causados”...
– Isto é um total e absoluto absurdo, delegado! Eu não vou assinar esta coisa!
– O senhor está se repetindo, Bloomfeld.
– Pro diabo, delegado!
– Bloomfeld, acho bom o senhor moderar a sua língua...
– Mas eu já disse que não tive culpa!
– E as testemunhas?
– Qualquer um pode atestar o que eu disse...
– Qualquer um, quem?
– Qualquer uma daquelas pessoas que estavam lá no engarrafamento, na hora em que se deu o sinistro...
– E onde estão essas pessoas?... O senhor tem o telefone delas? Algum indício de onde poderemos localizá-las?
– Não...
– Então o senhor não tem testemunhas.
– Mas que espécie de brincadeira é esta?!
– A coisa é séria, Bloomfeld. É o meu pescoço que está na guilhotina...
– Engraçado...
– Não acho...
– Esta noite eu tive um sonho...
– Sonhou que um acidente como este tinha acontecido?
– Não, sonhei que estava na guilhotina, e minha própria esposa puxava a corda...
– É o que eu chamaria de um sonho emblemático...
– Talvez seja mais do que isto...
– É uma sensação de todos nós...
– Parece que sim...
– Basta pôr os pés na rua... Pode ser a última vez.
– De quem é a culpa, delegado?
– Sua...
– Não pode ser. Não fui eu que inventei o sistema.
– Este é um outro detalhe, Bloomfeld. Infelizmente a corda arrebenta sempre do lado mais fraco, e o lado mais fraco, neste caso, é o seu.
– Quer dizer então...
– Quer dizer que o senhor vai ter de bancar o prejuízo do nosso senhor Juiz...
– Eu não posso crer numa coisa dessas...
– E ainda vai responder por danos morais e por impedir o exercício do Poder Judiciário...
Minha única reação diante daquele momento de insanidade pública foi o silêncio. Não havia escapatória para uma situação irremediavelmente perdida. Toda a coluna do prédio, erguida em concreto e falácia humana, sem substrato sólido, posto que a escória vestia terno e gravata, substancialmente lavados como limo jurássico, hipócrita, lentamente assimilados na categoria de bem nascidos, mas que agora me parecia o mesmo esterco de pombo que sujava as calçadas calcinadas...
– Outra coisa – continuou o urubu do delegado. – Esta noite o senhor pode se acomodar por aí...
O delegado olhou pra mim...
Eu analisava meus dedos, pobres dedos, que tanto labutaram para chegar onde cheguei...
Fitei a cara do delegado...
Agora sim...
Ele tinha cara de urubu...
Disse: “Merda!” tão logo me viu.
E eu pensei: “Vai pra puta que te pariu!”
Voltou a me encarar, o delegado...
– Sabe de uma coisa, seu... (ele olhou o B.O.) Bloomfeld... O senhor está verdadeiramente enrascado...
– Mas porque, doutor?
– Este homem que o senhor bateu no carro dele...
– Correção, delegado: ele me deu uma fechada inqualificável...
– Que seja. O fato é que ele perdeu uma audiência imprescindível graças a este incidente e agora quer arrancar o seu couro...
– Doutor, havia um trânsito miserável, com dois atropelamentos, tudo parado...
– Eu sei disso tudo, seu Bloomfeld, mas o que o senhor quer que eu faça?... O homem é Juiz de Direito!...
– E eu sou o cidadão que paga o altíssimo salário dele... Aliás, o seu também...
– Pera lá, Bloomfeld! Não apela, vai...
– Mas é a pura verdade, delegado.
– Vou dizer ao senhor o que é a verdade... Esse Juiz de Direito está furioso consigo, e se eu não enquadrar o senhor, eu é que serei devidamente fritado, entendeu?
– Entendi. Mas acontece que a culpa foi dele. Ele me deu uma fechada...
– Esta história eu já conheço, Bloomfeld, mas não vai ser contada...
– Como assim?
– O homem quer o seu escalpo.
– Então tá, delegado. Ele que pague o seu prejuízo; eu pago o meu.
– Não é assim que a banda toca, Bloomfeld...
– E como é que a banda toca, delegado?
– O senhor vai ter que reconhecer a sua culpa...
– Isto é um absurdo!
– Também acho, mas é assim.
– Mas isso tem que mudar!
– Bom. Não tem outro jeito. O senhor vai ter que assinar esta petição aqui...
– Que petição?
– Reconhecendo que “por uma manobra imprudente de sua parte, um acidente de conseqüências facilmente evitáveis ocasionou um prejuízo institucional irreparável. Eu, Haroldo Bloomfeld, me responsabilizo inteiramente por todos os prejuízos, materiais e institucionais, causados”...
– Isto é um total e absoluto absurdo, delegado! Eu não vou assinar esta coisa!
– O senhor está se repetindo, Bloomfeld.
– Pro diabo, delegado!
– Bloomfeld, acho bom o senhor moderar a sua língua...
– Mas eu já disse que não tive culpa!
– E as testemunhas?
– Qualquer um pode atestar o que eu disse...
– Qualquer um, quem?
– Qualquer uma daquelas pessoas que estavam lá no engarrafamento, na hora em que se deu o sinistro...
– E onde estão essas pessoas?... O senhor tem o telefone delas? Algum indício de onde poderemos localizá-las?
– Não...
– Então o senhor não tem testemunhas.
– Mas que espécie de brincadeira é esta?!
– A coisa é séria, Bloomfeld. É o meu pescoço que está na guilhotina...
– Engraçado...
– Não acho...
– Esta noite eu tive um sonho...
– Sonhou que um acidente como este tinha acontecido?
– Não, sonhei que estava na guilhotina, e minha própria esposa puxava a corda...
– É o que eu chamaria de um sonho emblemático...
– Talvez seja mais do que isto...
– É uma sensação de todos nós...
– Parece que sim...
– Basta pôr os pés na rua... Pode ser a última vez.
– De quem é a culpa, delegado?
– Sua...
– Não pode ser. Não fui eu que inventei o sistema.
– Este é um outro detalhe, Bloomfeld. Infelizmente a corda arrebenta sempre do lado mais fraco, e o lado mais fraco, neste caso, é o seu.
– Quer dizer então...
– Quer dizer que o senhor vai ter de bancar o prejuízo do nosso senhor Juiz...
– Eu não posso crer numa coisa dessas...
– E ainda vai responder por danos morais e por impedir o exercício do Poder Judiciário...
Minha única reação diante daquele momento de insanidade pública foi o silêncio. Não havia escapatória para uma situação irremediavelmente perdida. Toda a coluna do prédio, erguida em concreto e falácia humana, sem substrato sólido, posto que a escória vestia terno e gravata, substancialmente lavados como limo jurássico, hipócrita, lentamente assimilados na categoria de bem nascidos, mas que agora me parecia o mesmo esterco de pombo que sujava as calçadas calcinadas...
– Outra coisa – continuou o urubu do delegado. – Esta noite o senhor pode se acomodar por aí...
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