IV
O trânsito estava absolutamente parado.
Não se ia a lugar algum; somente as pessoas andavam nas calçadas, apressadas, como num clipe em velocidade surreal...
Sirenes, tiros, helicópteros, confusão, barulho, caos total.
Triste Cidade Maravilhosa!
Dois atropelamentos simultâneos, independentes entre si, mas quase no mesmo perímetro urbano, enrolaram o trânsito por mais de uma hora...
A coisa ia esquentar no trabalho...
Meu filme já estava queimando...
Mas eu nunca mais ia chegar lá...
Não sei porque, mas quando as coisas começam ruins dificilmente podem melhorar...
Eu nunca fora tão pessimista quando nesta época...
A coisa era muito simples, bastava abrir a janela e olhar para a rua. Aliás, nem precisava ir pra janela, só os ruídos que nos chegavam da rua já davam uma idéia a que ponto nós havíamos chegado.
Que coisa estranha este mundo!
Eu nunca havia pensado nisto antes, mas...
Que gente louca!
O trânsito foi liberado...
Carros passavam por mim desesperados...
Lá pelas tantas, uma Hilux prata, com vidros escuros, me deu uma fechada pela direita que eu não pude segurar e... pimba!
Fui direto na lateral da caríssima pick-up...
Confusão generalizada...
O carro pertencia a um juiz, desembargador, sei lá o que mais!
O cidadão, melhor do que todo mundo, estava atrasado para uma audiência, e não quis nem argumentar sua loucura...
A PM não demorou a chegar...
O sujeito da Hilux deu a já famosa carteirada a torto e a direito...
Os dois PMs vieram na minha direção cheios de marra...
– Agora nós vamos ter que registrar o senhor, Dotô...
Disse lá o pobre coitado do soldado que nem sabia o que tinha acontecido ao seu mundo, dissolvendo-se como um sorvete exposto no verão...
– Como assim me registrar?
Perguntei eu inocentemente.
– O senhor viu o carro do homem!
Continuou o PM.
E daí? Pensei eu.
– Daí que nós vamos ter que seguir pra delegacia...
Esbravejei no ato:
– Mas foi o cara que fez uma barbeiragem dos diabos! Eu não tive como desviar...
– Isso o senhor vai contar pro delegado, Dotô...
Insistiu o PM.
– Mas eu não posso ir pra delegacia agora, policial! Estou enrolado com o meu trabalho!
– Nós vamos ter que ir...
Volveu o PM, insensivelmente, como se nada o afetasse, como se fosse de lata.
– Mas eu não posso!...
Tentei insistir, pelo meu lado, mas o PM também, naquele dia específico, num dia de cão na vida de um homem vulgar, numa sociedade absolutamente desvairada, estava irredutivelmente disposto a cumprir a influência que pesava de Sua Excelência, o Desembargador de Direito, Juiz do Circo Romano, Senhor Acima de Todas as Classes que me mandasse futricar!
– Mas eu não posso!...
– Mas nós vamos!
– Mas eu não vou!...
– O senhor vai!...
E me cobriram de porrada...
Todo mundo viu...
Ninguém fez nada...
Porque ninguém podia fazer nada...
Retratos de uma época...
Fui.
Nunca soube o que foi feito do meu carro.
Um mundo absolutamente filho da puta!
O trânsito estava absolutamente parado.
Não se ia a lugar algum; somente as pessoas andavam nas calçadas, apressadas, como num clipe em velocidade surreal...
Sirenes, tiros, helicópteros, confusão, barulho, caos total.
Triste Cidade Maravilhosa!
Dois atropelamentos simultâneos, independentes entre si, mas quase no mesmo perímetro urbano, enrolaram o trânsito por mais de uma hora...
A coisa ia esquentar no trabalho...
Meu filme já estava queimando...
Mas eu nunca mais ia chegar lá...
Não sei porque, mas quando as coisas começam ruins dificilmente podem melhorar...
Eu nunca fora tão pessimista quando nesta época...
A coisa era muito simples, bastava abrir a janela e olhar para a rua. Aliás, nem precisava ir pra janela, só os ruídos que nos chegavam da rua já davam uma idéia a que ponto nós havíamos chegado.
Que coisa estranha este mundo!
Eu nunca havia pensado nisto antes, mas...
Que gente louca!
O trânsito foi liberado...
Carros passavam por mim desesperados...
Lá pelas tantas, uma Hilux prata, com vidros escuros, me deu uma fechada pela direita que eu não pude segurar e... pimba!
Fui direto na lateral da caríssima pick-up...
Confusão generalizada...
O carro pertencia a um juiz, desembargador, sei lá o que mais!
O cidadão, melhor do que todo mundo, estava atrasado para uma audiência, e não quis nem argumentar sua loucura...
A PM não demorou a chegar...
O sujeito da Hilux deu a já famosa carteirada a torto e a direito...
Os dois PMs vieram na minha direção cheios de marra...
– Agora nós vamos ter que registrar o senhor, Dotô...
Disse lá o pobre coitado do soldado que nem sabia o que tinha acontecido ao seu mundo, dissolvendo-se como um sorvete exposto no verão...
– Como assim me registrar?
Perguntei eu inocentemente.
– O senhor viu o carro do homem!
Continuou o PM.
E daí? Pensei eu.
– Daí que nós vamos ter que seguir pra delegacia...
Esbravejei no ato:
– Mas foi o cara que fez uma barbeiragem dos diabos! Eu não tive como desviar...
– Isso o senhor vai contar pro delegado, Dotô...
Insistiu o PM.
– Mas eu não posso ir pra delegacia agora, policial! Estou enrolado com o meu trabalho!
– Nós vamos ter que ir...
Volveu o PM, insensivelmente, como se nada o afetasse, como se fosse de lata.
– Mas eu não posso!...
Tentei insistir, pelo meu lado, mas o PM também, naquele dia específico, num dia de cão na vida de um homem vulgar, numa sociedade absolutamente desvairada, estava irredutivelmente disposto a cumprir a influência que pesava de Sua Excelência, o Desembargador de Direito, Juiz do Circo Romano, Senhor Acima de Todas as Classes que me mandasse futricar!
– Mas eu não posso!...
– Mas nós vamos!
– Mas eu não vou!...
– O senhor vai!...
E me cobriram de porrada...
Todo mundo viu...
Ninguém fez nada...
Porque ninguém podia fazer nada...
Retratos de uma época...
Fui.
Nunca soube o que foi feito do meu carro.
Um mundo absolutamente filho da puta!
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