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Mostrando postagens de 2010

O DESPERTAR DE HAROLDO BLOOMFELD - CONTINUAÇÃO

XII Enfim... Um dia eu topei com o Juiz de Direito mais uma vez... Talvez no dia do julgamento talvez... Eu já sabia que nada seria como antes neste mundo de Abrantes. Depois de reler Joyce pela quarta vez, amadurecido enfim... Eu comecei entender que as palavras estão na verdade soltas no ar... Na mente... E portanto no espaço sideral... Sem amarras... E como irei descrever este final apocalíptico? É muito simples... Eu havia perdido até a fome, uma coisa que não sói acontecer com muita freqüência... Nem mesmo encerrado naquela saleta desgraçadamente. Aliás eu já havia saído daquele ambiente de purgatório maldito; só mesmo na mente de alguns estúpidos sacerdotes católicos inventar tal parada! Defrontei-me finalmente com o Juiz de Direito... O embate final antes do Juízo... Ele virou-se para mim, a cara mais lavada do mundo e me disse: – Quem você pensa que é afinal, Bloomfeld? Isso eu me lembro bem. – Eu? – volvi, surpreso como responder. – Eu ...

O DESPERTAR DE HAROLDO BLOOMFELD - CONTINUAÇÃO

XI Outro dia a mais significava um dia a menos, embora a passagem que limitava a minha estada de certo modo não demonstrava outra coisa que não fosse ainda a mórbida esperança encapuzada... Mas o que importava era isso... Este caso permanecia como o inconstante inverno dos meus sonhos de menino... Primavera? Verão? Outono? Inverno? Sem a neve do Papai Noel do Norte, indecifrável nas suas razões de Império. Uma propensão cadavérica à decapitação pura e simples, mais pura do que simples, porquanto uma eliminação sumária era coisa de somenos importância, ainda que palpável. O difícil seria convencer a sociedade da legalidade de dita ação... A sociedade não passa de uma matrona prostituta com um ventre enorme que adora se empanturrar de novidades, e ela acaba cedendo às vontades dos rufiões atrapalhados, os tiranos daquelas estações transitórias... Mais inconstante que uma ninfeta cheia de vontades pueris! Quando isto vai ter um fim? Daqui a mil anos talvez... ...

O DESPERTAR DE HAROLDO BLOOMFELD - CONTINUAÇÃO

X O Delegado entrou atabalhoadamente, tropeçando nos cabos que se cruzavam no chão por todos os lados, à maneira de raízes, enfurecido, maldizendo o “filho da puta que transformou esta delegacia num circo!” – Se eu pegar o infeliz eu fuzilo ele! Ele berrou uma série de impropérios desqualificados impublicáveis descartáveis neste momento por pura questão estética digamos assim. Nenhum dos ofendidos houve por bem responder, até porque não foram encontrados. Ainda bem, porque, se o fizessem, atrairiam todo o rancor e ódio de um pretenso servidor da lei. Esta era outra coisa, Haroldo Bloomfeld bem o sabia, apenas afeita aos alfarrábios civis, e não para ser considerada na prática, uma vez que a Lei, com letra maiúscula, era uma gazeteira de primeira em terras tupiniquins. – O que está acontecendo aqui, Bloomfeld? – Eu virei notícia, delegado... – Você o quê?! – Parece que a imprensa acredita que o meu caso pode gerar uma mudança histórica neste país... – É mais fácil um ...
IX Arranjei... Naturalmente. Ocorre que o problema não era este... Virtualmente... Não se pode falar de advogados... Existe uma plêiade deles por aí... Muito provavelmente Cláudia já havia entrado em contato com o meu... Porém, é óbvio que o problema todo não dizia respeito a meia dúzia de advogados... Que existisse uma grosa, admitamos... Entretanto, potencialmente falando, filosoficamente dissertando sobre um tema que tece páginas e mais páginas a favor ou contra a instituição mais pacata que se tem notícia, não a mais desafortunada, com toda a certeza, o problema, definitivamente, não se resumia a isto... Realmente. Havia como que uma balbúrdia atrás de mim, vinda de fora, algum lugar; um burburinho incessante, um zunzum anárquico, com muitas vozes falando ao mesmo tempo. Vozes humanas, desordenadas... Mas o que era isto? Ninguém sabia. O delegado não estava. Quase era certo afirmar. No entanto havia alguém... Que conhecia o segredo de tantas voz...

O DERPERTAR DE HAROLDO BLOOMFELD - CONTINUAÇÃO

VIII Eram cerca de dez horas da manhã daquele mesmo domingo quando o Juiz de Direito entrou na delegacia acompanhado do delegado titular, o mesmo com cara de urubu... Nós três nos reunimos na sala do delegado... Sala trancada. O Juiz me encarava com aquela expressão de quem havia acabado de se sujar com merda... Eu estava tão cansado, enfastiado, faminto, que nem me dei ao luxo de ter qualquer reação de medo ou ameaça iminente... Não pensava nem em Cláudia nem nas crianças... O meu trabalho... Nem parecia que eu tivera um algum dia... Era tudo tão absurdo... Não havia nexo nesta realidade banal... Aliás, não era por acaso que os hindus a denominavam Maya. Ilusão. O delegado começou, inquirindo-me: – Você sabe porque o Juiz de Direito veio aqui hoje, não sabe, Bloomfeld? Eu não tinha a mais remota idéia. – Ele veio, Bloomfeld, porque deseja entrar num acordo com o senhor... Um acordo? Que espécie de acordo um homem como ele, que tinha o céu e a terra nas...

O DERPERTAR DE HAROLDO BLOOMFELD

VII Mais um dia se passou... Um domingo, se não me engano, não sei se ensolarado ou nublado, apesar de que da janela da saleta onde eu tentava dormir, enganar o estômago, pudesse vislumbrar algo como um panorama não muito enevoado, ainda que a claridade-sombra se alterasse de tempos em tempos, talvez, um suposto brilho tivesse me ofuscado pela manhã, quando o sol refletira-se nas esquadrias de alumínio da sala defronte, separada apenas por um fosso inútil, cheio de restos de comida petrificados e palitos de fósforos usados, mas eu não tinha certeza porque estava meio desnorteado com a noite mal dormida, o torcicolo atroz, a barba crescida espetando o rosto, e a barriga vazia roncando, desesperada pela falta de um alimento para esta alma penada e fosca. Talvez estivesse sol lá fora sim, porém o pior de tudo era esta incerteza... Havia alguns séculos ela convivia conosco. Eu não podia sair dali... Encarcerado como um prisioneiro, mas ainda assim eu achava que o mundo exterior ...

O DESPERTAR DE HAROLDO BLOOMFELD(CONTINUAÇÃO)

VI No dia seguinte, bem cedo pela manhã, Cláudia, premida pelo desejo imorredouro de ver o seu marido dela, maltratado pela sorte, oriundo das camadas não as mais pobres dentre todas aquelas que disputavam o pão nosso de cada dia, compareceu à delegacia. Sem as crianças, é claro. O delegado permitira-me duas ligações, mas eu não me importara muito com esta caridade institucional. Liguei apenas para Cláudia a fim de explicar, por linhas sumárias, o que me tinha acontecido. Pior mesmo foi explicar ao chefe o incidente... No trabalho as coisas não iam nada bem para minha carcaça de tartaruga encéfala. Isto significava, provavelmente, demissão, sem muitos exórdios com fachada de magnanimidade, embora o meu chefe, pessoalmente, ao pé de um telefone inequívoco, garantisse que tudo estava bem, não é Xavier? Cláudia, toda chorosa, amarfanhada como capa de revista de fofocas depois de duas dúzias de clientes de um consultório médico a manipularem, fora introduzida na saleta onde eu impro...

O DESPERTAR DE HAROLDO BLOOMFELD(CONTINUAÇÃO)

V O delegado olhou pra mim... Eu analisava meus dedos, pobres dedos, que tanto labutaram para chegar onde cheguei... Fitei a cara do delegado... Agora sim... Ele tinha cara de urubu... Disse: “Merda!” tão logo me viu. E eu pensei: “Vai pra puta que te pariu!” Voltou a me encarar, o delegado... – Sabe de uma coisa, seu... (ele olhou o B.O.) Bloomfeld... O senhor está verdadeiramente enrascado... – Mas porque, doutor? – Este homem que o senhor bateu no carro dele... – Correção, delegado: ele me deu uma fechada inqualificável... – Que seja. O fato é que ele perdeu uma audiência imprescindível graças a este incidente e agora quer arrancar o seu couro... – Doutor, havia um trânsito miserável, com dois atropelamentos, tudo parado... – Eu sei disso tudo, seu Bloomfeld, mas o que o senhor quer que eu faça?... O homem é Juiz de Direito!... – E eu sou o cidadão que paga o altíssimo salário dele... Aliás, o seu também... – Pera lá, Bloomfeld! Não apela, vai... ...

O DESPERTAR DE HAROLDO BLOOMFELD(CONTINUAÇÃO)

IV O trânsito estava absolutamente parado. Não se ia a lugar algum; somente as pessoas andavam nas calçadas, apressadas, como num clipe em velocidade surreal... Sirenes, tiros, helicópteros, confusão, barulho, caos total. Triste Cidade Maravilhosa! Dois atropelamentos simultâneos, independentes entre si, mas quase no mesmo perímetro urbano, enrolaram o trânsito por mais de uma hora... A coisa ia esquentar no trabalho... Meu filme já estava queimando... Mas eu nunca mais ia chegar lá... Não sei porque, mas quando as coisas começam ruins dificilmente podem melhorar... Eu nunca fora tão pessimista quando nesta época... A coisa era muito simples, bastava abrir a janela e olhar para a rua. Aliás, nem precisava ir pra janela, só os ruídos que nos chegavam da rua já davam uma idéia a que ponto nós havíamos chegado. Que coisa estranha este mundo! Eu nunca havia pensado nisto antes, mas... Que gente louca! O trânsito foi liberado... Carros passavam por mim de...

O Despertar de Haroldo Blomfeld (continuação)

III – Tá atrasado, Haroldo! Berrou Cláudia... Despenteada... Cheia de remela e mau hálito... Horrível voz a me sacudir numa manhã fria e nublada. Fui direto para o chuveiro... Mas a água quente não esquentava... Puta que o pariu! Berrei... Às seis e meia da manhã... Fria, nublada, degradante manhã... – Cala a boca, Haroldo! Fui advertido veementemente por Cláudia, mais descabelada do que nunca, mau humorada, berrou ela também: – Allanzinho não quer ir pr’escola... E acrescentou: – Você quer acordar toda a vizinhança? Talvez quisesse... Mas não no sentido que ela dissera. Minhas leituras, inumeráveis, nas horas de folga, uma vez qu’eu pudesse, me encaminhavam a um beco sem saída... Quer dizer, não era eu quem estava numa cilada, e sim esta civilização global... Sem saída é o que parecíamos. Escutei, então, uma voz muito fininha, desafinada, porém melodiosa, cantando uma cantiga infantil moderna... A Xata da Chuxa! Mas quem cantava era mi...

O Despertar deHaroldo Blomfeld (continuação)

II Levantei-me agonizante, tropeçando nos meus próprios passos enfarados, quase mal-humorados, seguindo direto para o cafezinho da dona Matilde... Dona Matilde, murmurei libidinosamente, para que ela não ouvisse, claro. “Que seios deliciosos, Dona Matilde... Em forma de pêra d’água”. A maravilhosa dona Matilde!... Maldito Pessanha que teve o privilégio de tocá-los ao vivo!... Aquele cafezinho quentinho, cheiroso, da deliciosa dona Matilde... Mas uma bufada pigarrenta do meu chefe disse-me da inconveniência daquela interrupção, embora o meu gesto tenha detonado uma fuga em massa para o delicioso cafezinho da saborosa Matilde... Ai meu Deus, gostosa, ainda te pego um dia!... “Mas o Bloomfeld é um alucinado pelas justificativas tecnicistas!” Este foi o Xavier, aquele bajulador lambedor de solas de sapatos, filho da puta, falando de mim, o sacripanta! Aqui na empresa todo mundo se adorava... Como Flamengo e Vasco, Corinthians e Palmeiras, Internacional e Grêmio, etc e...

O DESPERTAR DE HAROLDO BLOOMFELD

Quando eu penso naquilo tudo pelo qu’eu passei, tudo que amealhei nesta vida bandida, a que as pessoas se prendem com unhas e dentes, tudo aquilo que elas julgam de bom tom, bens que fazem com que as pessoas revirem as cabeças de felicidade, percam o sono com o dia seguinte, sonhando quando estiverem na loja pela manhã, e o pequeno Allan chegou mesmo a perder a cor certo dia, num natal bem bonito, recordo-me bem, quando eu lhe trouxe aquele ferrorama completo, com todos os ingredientes que um garoto sonha, e, mesmo que não sonhasse perdidamente, talvez a coisa nem tivesse passado pela sua cabeça pequenina, mas quando ele viu o trenzinho ali, ao vivo, percorrendo seu eterno caminho rumo sempre ao mesmo ponto, como a serpente que mordesse a própria cauda... Nossa Senhora! Ele era bem pequeno o moleque... Eu me lembro da carinha dele de alegria, a surpresa, seguida do largo sorriso, o deslumbramento quando aquele pequeno universo iniciou sua vida, mesmo que ele não soubesse o que rep...

Eu Não Sei Que Título Dar...

   Ainda que me falte o ar eu sigo respirando...    Ainda que me falte a terra debaixo dos pés eu buscarei onde apoiar meus pés peregrinos...    Cada reviravolta do destino oco, com maior ímpeto, eu abalo a caverna do pensamento retrógrado.    Não há paredes que possam me segurar...    Não há barreiras para minha língua bífida...    O meu veneno é somente a verdade.    Por mais que persistam, insistam, os sacerdotes do status quo não poderão perpetuar suas meias verdades indiscriminadamente, ou mesmo a mentira completa, pois eu estarei sempre pronto a desmentí-los, para apontar o meu dedo acusador na direção das suas faces de cera, disposto a demolir todos os seus ídolos, seus templos eletrônicos, ou o que seja, porquanto o seu canto de sereia não poderá me atirar às pedras.     Minha pena está pronta a destroçar suas teses esdrúxulas e incongruentes, ainda que eu reconheça que o seu poder s...

Segue Como Segue

   Este instante que se aproxima é a consequência de um evento banal, transcrito em prosa e suor aos meus malfadados olhos atônitos.    Poesia não é o resultado de algumas poucas rimas hesitantes, construídas aritmeticamente, mas o produto de uma alma atenta.    Quem mergulha, exultante, nas águas turbulentas do oceano sem fim, por quem choram tantas bocas malditas, insipientes, a quem tantos nunca deveram tanto assim, talvez porque nunca propagaram metáforas perdidas em cidades barulhentas, o que não significa viver, mas respirar quem pode saber?    Não sei o efeito que pode causar este meu canto allegro ma non troppo, todavia a fortaleza que ofusca os sentidos mórbidos deste meu coração irreal, abalará as estruturas deste sentimento azul.    Não sei o que me espera adelante, neste imortal painel em construção; só sei que continuarei o meu caminho com os olhos semiabertos, porquanto, o mais importante neste momento, é o que me ...